Quando a Moody's decidiu cortar em quatro níveis o 'rating' de Portugal, colocando a dívida do país na categoria de 'lixo', o primeiro-ministro classificou esta decisão como "um murro no estômago". Calcula o Sr. primeiro-ministro a sensação que eu e 9 milhões de portugueses sentiram ao ouvi-lo anunciar que ia fazer o que sempre disse que não faria e, que vai fazê-lo, contra os 'suspeitos do costume'? Afirmou que não sentia que "tinha de pedir desculpas aos portugueses". Ainda que a minha opinião não lhe interesse para nada, eu nem votei em si, devia pedir desculpas sim! Todos os dias e todas as horas. Não sei se alguém o desculpa por estar a implementar medidas que continuarão desvalorizar o trabalho, a estilhaçar as condições de vida da população, a coarctar os direitos sociais. Afirmou que o défice não é seu. Até lhe posso reconhecer algum mérito na afirmação. O défice é consequência de décadas de governação desgovernada da qual o seu partido é, igualmente, responsável. Mas as medidas são suas. E, mais uma vez ao contrário da opinião de uns quantos que ouvi por aí, não acho que tenha sido corajoso. Qual é a coragem de tirar, cortar e usurpar os direitos dos mais fracos, os trabalhadores por conta de outrem? Qual a coragem de, a troco da aprovação duvidosa da Srª Merkel, castigar os funcionários públicos e os pensionistas? Qual a coragem de, num momento particularmente difícil para o país, ser o 'kamikaze' do aprofundamento da dependência através da aceitação tácita de interesses externos que, aumentarão para níveis ainda mais assustadores o desemprego, conduzindo, inevitavelmente o país, a uma agravada vulnerabilidade económica? Todas estas medidas vêm impregnadas de dramatismo, como compete a qualquer tenor, diga-se, com a intenção clara de serem interiorizadas pelo cidadão comum como uma inevitabilidade. Com ar contrito, é afirmado que não há alternativa já que todos vivemos, durante anos, acima das nossas possibilidades. E, mais uma vez, afirmo que não vivi acima das minhas possibilidades. Vivi do meu salário, paguei todos os impostos que me cobraram. Vi o meu salário ser reduzido, sem apelo nem agravo, para sustentar o grande capital que é quem, efectivamente, controla o país. As medidas apresentadas são injustas e contraproducentes. São injustas ao impor novos e mais pesados sacrifícios à generalidade da população, acentuando as fortes desigualdades sociais existentes. São contraproducentes porque, ao reduzir o nível de vida de pessoas de rendimentos médios e baixos, faz cair brutalmente a procura interna provocando a recessão da economia. Não sou economista. Mas parece-me estranho, ouvir o Governo falar de crescimento económico e da criação de emprego quando, as medidas anunciadas, só irão aumentar as desigualdades sociais e a pobreza. Porque razão só é possível aumentar a produtividade e conquistar a credibilidade perante um deus chamado 'mercados', asfixiando e empobrecendo um país? Será que tem a noção, Sr. primeiro-ministro, que está a destruir os direitos laborais e a protecção social? Será que tem a noção que para sustentar as grandes fortunas, as tais que podem recorrer a paraísos fiscais e que são perdoadas, está a castigar a classe média, através da redução de salários, pensões, o aumento brutal de impostos sobre os rendimentos de quem trabalha e sobre os bens essenciais? Será que tem a noção que a sua política de privatizações em sectores estratégicos para o estado põe em causa a universalidade dos direitos básicos dum estado social? Não tem. Ou tem e, por isso mesmo, não o desculpo! Porque está a roubar-nos o presente e a hipotecar o nosso futuro e o das novas gerações. Sr. primeiro-ministro há sempre alternativas. Haja vontade política para assumi-las. Como diz o povo, à beira do abismo a única forma de andar para a frente é dar um passo atrás.
Marília Azevedo