Apesar de continuar a alimentar o ecossistema informativo, de marcar a agenda, de ser a jóia da coroa de muitos grupos de comunicação e de denotar uma propensão de serviço aos seus públicos, mesmo que não tenha obrigações de serviço público, nem receba por isso, dando mais do que a informação essencial, a imprensa escrita vive momentos difíceis. Segundo os entendidos perde cerca de 40% de receita publicitária por ano, desde 2007 e convive com fragilidades de um mercado marcado pela austeridade, avesso a bons negócios e a novos investimentos. Contudo, a crise não pode matar a esperança.
A imprensa terá que fazer pela vida, o que na prática significa estar obrigada a produzir conteúdos de qualidade, únicos e com alma. Aos jornais em papel não chegam as mortes em directo, tão na moda nas televisões, nem os ‘reality shows’, as telenovelas ou outras espécies de produtos virados para a alienação. As audiências na imprensa tradicional resultam da postura editorial, do jornalismo, o activo valioso que continuará a constituir a principal âncora das receitas dos grupos de imprensa. Um jornalismo livre e independente, feito de atractividade, de exclusivos, de reportagens, de investigação, de proximidade e da capacidade de mexer com os leitores.
No debate realizado na passada semana em Cascais, subordinado ao tema “A Imprensa Escrita em Portugal: Desafios e Oportunidades”, no âmbito do Dia da Imprensa de Língua Portuguesa, num encontro dinamizado pela Associação Portuguesa da Imprensa, Luís Santana, administrador da Cofina, Rolando Oliveira, vice-presidente da Controlinveste e Pedro Norton, vice-presidente do grupo Impresa, reafirmaram o propósito de salvaguardar o essencial, até porque “as marcas vivem de conteúdos, de notícias”. A tese de Rolando Oliveira tem Luís Santana como aliado: “Não imagino o mundo sem jornalismo”. Ninguém imagina, nem mesmo nesta ilha por vezes distante dos desafios que se colocam e onde há quem faça por dar cabo deste pilar imprescindível na democracia e nas sociedades esclarecidas. Os mentores da concorrência selvagem que espatifam onze mil euros/dia num jornal distribuído à borla para dar cabo do mercado sabem que violam tudo o que é lei em Portugal, põem em causa de forma grave o pluralismo, incitam à pratica dumping e distorcem a concorrência. Nada lhes aconteceu até agora. Mas há novidades para breve, que confirmam o pior dos cenários para todos quantos ignoraram apelos sucessivos a que se cumprisse a Constituição. No mínimo, o Governo será chamado a fazer opções: ou cessa a atribuição dos auxílios de estado ou faz com que haja distribuição equitativa dos apoios. No máximo, para além de desemprego e dor, o mesmo executivo deverá ser responsabilizado por deitar fora soluções que agora será obrigado a recorrer.
Vamos resistindo aos boicotes à liberdade de informação, às ameaças de expropriação, ao corte de assinaturas, às ordens públicas para o corte de publicidade por parte de empresários e às patifarias medonhas sem paralelo no mundo civilizado. Mas acima de tudo, sabemos para onde vamos, assumindo com as partes o compromisso de continuar a pugnar pelos interesses do povo e não dos que se julgam importantes.