A urgência nacional de tudo fazer e de ir até mais além daquilo que a famigerada troika nos impôs, tem correspondido na Madeira a uma longa e penosa indefinição, enquanto cresce a certeza de que o futuro não será fácil.
O sentimento de que a festa acabou é, neste momento, generalizado, resta apenas saber exactamente o quanto nos custará a ressaca.
Uma região que viveu os últimos anos a reclamar um estatuto diferenciado, dada a sua situação de ilha ultraperiférica, vai agora também experimentar o outro lado dessa diferença que criou um regime tão de excepção que se julgou acima das regras e da lei.
É claro que a Madeira não foi, nem é excepção na forma atabalhoada como a coisa pública foi gerida durante todos estes anos, apenas fomos mais longe alicerçados na convicção de que a nossa singularidade e o exotismo de quem nos governa seriam suficientes para explicar o que não se explica e para perdoar o que não tem perdão.
Passados os tempos de abundância, tanto cá como lá apenas resta a possibilidade de pagarmos o regabofe com sacrifícios. Ou seja, passamos do oitenta ao oito, da abundância à total miséria. Entre uma e outra realidade, fica agora clara a incapacidade de todos os políticos, sem excepção, fazerem do país e da região mais do que dois territórios entregues a uma gestão do momento. Gastar enquanto existe e apertar o cinto quando as dificuldades surgem.
Nesta equação não existem inocentes, por mais que nos queiram convencer do contrário. Ao nível nacional, tanto o PS como o PSD têm alternado o poder, e na Madeira, como se sabe, a alternância nunca se concretizou. Sendo assim, os únicos culpados pelo o estado a que isto chegou são, tanto cá como lá, os que tiveram oportunidade de fazer alguma coisa, utilizando para isso o voto que legitimamente lhes foi confiado pelo povo.
É, por isso, incompreensível que, feitas as contas e descobertos todos os buracos, queiram fazer de quem os elegeu os bodes expiatórios de todos os erros cometidos e de todas as omissões praticadas de plena consciência.
Olhando para as medidas anunciadas não há a certeza de que sejam a solução, mas fica claro que, neste país, as gorduras do Estado são o povo, o que trabalha e o que já contribuiu e agora merecia um descanso e o legítimo cuidado do Estado social.
Chegados a este ponto, temos a austeridade como única certeza e na Madeira a dupla austeridade como horizonte. Aqui estamos apenas a adiar o inevitável, em período de reflexão que já se prolonga para lá do razoável e do que seria aconselhável. O mar que nos separa não será, neste caso, o mar que nos protege da contaminação, mas apenas mais um factor de diferenciação pela negativa. Ou então voltará a ser o que já foi: uma porta de saída quando todas as outras se fecharem num estrondo sem eco e sem perdão.