Talvez seja destino, talvez castigo. A verdade é que nos principais cargos de representação institucional na Madeira temos assistido a um retrocesso em várias frentes e em várias áreas de intervenção. Quer seja através dos representantes para a Madeira, quer através dos próprios titulares dos cargos. Que têm em comum Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar? São piores, para a Madeira, do que os seus antecessores. Clara e cruelmente piores. Goste-se ou não do que fizeram os anteriores Presidente da República, primeiro-ministro e ministro das Finanças, a verdade é que nunca nenhum deles foi tão longe no relacionamento com os madeirenses. Jorge Sampaio nunca foi tão indiferente às anomalias da Região como tem sido Cavaco Silva. O actual Presidente da República pura e simplesmente não quer saber de nós para nada. Em relação aos Açores, foi ágil a criticar a revisão do Estatuto. Já o da Madeira está completamente desactualizado, tem excepções que não se aplicam em mais lado nenhum do País e que faz o Presidente? Zero! Nem uma mensagem, um recado, um discurso, uma atenção qualquer. Nada. Pior: Cavaco fez o que um Presidente digno nunca poderia fazer: passear ao colo do Governo Regional durante uma semana de visita à Madeira e receber os líderes da Oposição num quarto de hotel, quase como se eles fossem clandestinos, como se tivessem sarna. Achei isso - e continuo a achar - a mais baixa atitude que o Presidente poderia ter. E ainda teve o desplante de aligeirar is actos mais criticáveis de Jardim dizendo aos seus opositores para não ligarem. Quase como diz o pai de um filho mais travesso, que anda às turras com os irmãos e os primos: "Deixem lá, não liguem, já sabem como ele é, sabem que é assim." Foi isto que disse Cavaco Silva. E acredito que ainda é isso que pensa. No fundo, diz o PR, amanhem-se com o que têm. Desenrasquem-se diz Cavaco aos madeirenses. E nós desenrascamo-nos como podemos. Que faz Pedro Passos Coelho? Um ajuste de contas com Jardim que mete os madeirenses pelo meio. Em nome do rigor e da transparência aperta-nos num sufoco nunca antes visto. José Sócrates também nos apertou os cales com uma nova Lei de Finanças que nos retirou seis milhões de euros, mas foi benevolente quando mandou para cá carradas de dinheiro para Jardim gastar em cimento e inaugurar e ganhar as eleições. Que faz Vítor Gaspar? Aplica-nos um corte cego, como faz em relação a todo o País, mas não lhe doem as mãos quando anuncia uma austeridade maior para os madeirenses por causa do incumprimento das leis cujos responsáveis são principalmente Alberto João Jardim e Ventura Garcês. Foram eles que esconderam dívidas e somos nós, todos os madeirenses, que vão apanhar pela medida grande. E onde anda e o que faz o actual representante da República para a Madeira? Ireneu Barreto parece ter aceite o cargo, mas apenas pela metade, a metade boa. E essa é viver num palácio com vista para o mar, é receber em audiência algumas personalidades, é fazer-se anunciar para dizer que vai votar. Deve pensar que ser representante da República de Portugal na Madeira é mais ou menos como ser presidente da Junta de Freguesia da Parvónia. Mas não é! Um representante da República não recusa receber os partidos da Oposição por, alegadamente, não ser oportuno em tempo de eleições. Pode achar que não é oportuno intervir, mas isso nunca o deveria impedir de ouvir. Que saudades de Monteiro Diniz. E por falar em saudades, nunca pensei escrever o que vou fazer a seguir: tenho saudades dos tempos de D. Teodoro de Faria. O antigo bispo do Funchal, que critiquei em dois ou três artigos de opinião, era muito mais interventivo do que o actual - tenho de reconhecer agora - mesmo nos seus momentos de maior docilidade. Ainda me lembro de algumas homilias de D. Teodoro Faria. Já de D. António Carrilho retenho quase só aquele sorriso tão cândido quanto vazio e absolutamente incompreensível quando há centenas de famílias a viver uma crise que não esperavam, quando há milhares de desempregados que não sabem o que fazer da vida. Não espero do responsável máximo pela Diocese da Madeira uma intervenção política ou críticas ligeiras e a gosto do freguês. Mas espero que se afaste do Poder - ainda não esqueci aquela vergonhosa inauguração de uma igreja pensada há vinte anos e miraculosamente concluída em vésperas de eleições - e espero, sobretudo, que o bispo seja capaz de ter uma palavra para com os mais desfavorecidos. Reconheço que recentemente ensaiou um discurso mais próximos desses, mas ainda longe das intervenções que têm feito, nas últimas semanas, vários bispos de todo o País. E não compreendo como pode o chefe da Igreja Católica madeirense dormir descansado quando permite que o jornal de que é sócia a Diocese, juntamente com o Governo, faça todos os dias a apologia desse mesmo Governo e custe cerca de 11 mil euros por dia. Todos os dias. E é oferecido, apesar de ter escarrapachado um preço de capa que ninguém cobra, numa mentira descarada que custa a crer que a Diocese aceite assim, sem mais nem menos, esta ilegalidade. O mais preocupante, no meio disto tudo, é que quando olhamos de forma geral para quem tem responsabilidades nesta terra, resta-nos a triste constatação de que os actuais são, quase todos, mais frágeis que os antecessores. Por outras palavras, é cada um pior que o outro! E isso é mau.