Era hora de ponta. Entrei no comboio, que vinha do Rossio com destino a Sintra, sem esperança alguma de fazer a viagem sentada. Entre tropeções e empurrões vislumbro uma clareira de lugares vazios e dirijo-me, lampeira, para o respectivo oásis de pés cansados.

Eis quando o mistério se desfaz frente aos meus olhos e olfacto. Um senhor visivelmente embriagado sangrava abundantemente de uma ferida exposta na cabeça. Ao lado, as pessoas continuavam impávidas, a ler, a pensar no jantar dentro de momentos, absortas. A minha expressão facial denunciou o choque. “Ele está consciente”, garantia alguém. “Já vem assim do Rossio”, acrescentava como se fosse uma banalidade.

Indignada perguntei se alguém tinha telefonado para a emergência. Ninguém. Na minha cabeça começo a ouvir a música do Sting, Englishman in New York, numa versão livre, que seria qualquer coisa como ‘sou uma madeirense em Lisboa’. Procuro o telemóvel, ligo e respondo às perguntas da forma possível, até que do outro lado se chega à conclusão que será preciso interceptar o comboio antes da chegada ao destino. À minha volta noto o desconforto. Ainda demorou algum tempo, mas lá acabaria por chegar a ambulância para prestar assistência ao ferido.

Nunca mais soube do senhor e só me lembrei deste episódio, que marcou os meus primeiros dias de vida estudantil em Lisboa, esta semana quando li uma notícia (e vi o vídeo que não recomendo) de uma criança de dois anos e meio que foi atropelada duas vezes na China, por duas carrinhas, cujos condutores se puseram em fuga. As imagens captadas por uma câmara de videovigilância mostram que 18 pessoas passaram pelo local e ninguém socorreu a menina, que jazia na sua própria poça de sangue. Foi depois acudida por uma senhora, mas acabou por morrer no hospital.

A cena é um verdadeiro murro no estômago e gerou enorme controvérsia entre os chineses, que se viram confrontados com a sua própria desumanização. Nada tem a ver com o caso que retratei, em termos de gravidade, e estou convencida que dificilmente pudesse acontecer entre nós.

Mas a verdade é que algo de estranho se passa com as pessoas. Estamos cada vez mais imunes ao sofrimento alheio, mais egoístas e apáticos. As fotos de crianças à fome na Somália, o número de mortes que provocam (30 mil em três meses), pouco afectam o nosso dia-a-dia, como se vivêssemos anestesiados. Não deixa de ser assustador pensar que possamos estar no caminho de nos tornarmos a prazo todos ‘chineses’. E se isso acontecer um dia podemos ser nós a morrer, sozinhos, na beira da estrada.