O futuro, seja qual for, resulta sempre do que fez ou não fez. Salvo momentos e eventos extremos de ruptura, os sistemas sociais evoluem em função das acções em curso a cada momento. Os caminhos e destinos que se vão percorrendo e atingindo resultam, directa ou indirectamente, das acções e interacções com as variáveis determinantes, sejam sociais, ambientais, que cada tempo e lugar vão suscitando. Ao longo da história, do lado humano, as guerras, fome, doenças são exemplos de motivações para mudanças radicais mas, mesmo essas, expectáveis, já que resultam de vontades próprias ou de falta dessas vontades. Do lado ambiental, catástrofes naturais como os sismos, tsunamis, vulcões, cheias e secas também são conhecidos como vectores de indução de mudanças radicais. A estas duas tipologias de eventos vem agora juntar-se a estonteante velocidade que aniquila sistemas sociais e económicos, quase sem aviso prévio e que lança o pânico económico revelando a incapacidade dos actores políticos em lidar com este momento critico. Parece que a única solução é, simplesmente ir ao bolso dos contribuintes, na procura da liquidez imediata que nada resolve. É nestes tempos que a palavra planeamento ganha conteúdo. Na vertigem da fartura, planear é sinónimo de perda de velocidade. Não há tempo a perder e minudências como análise de risco (económico, social e ambiental) são relegadas para segundo plano se não mesmo rejeitadas com veemência. Sustentabilidade, em tempos de abundância é um capricho que resulta na perda de oportunidades de investimento ou bloqueio a dinâmicas que se julgam imparáveis. Esquece-se que do planeamento faz parte o conhecimento, sob a forma de informação no apoio à tomada de decisão. Ou a monitorização, o acompanhamento participado e responsável pelas partes interessadas, ou ainda a própria capacidade de revisão de objectivos, realinhamento de estratégias e redefinição de metas e metodologias. Inclusivamente, a previsão de momentos críticos, faz parte do processo de planeamento. Essa consciência do imponderável não é mais do que a possibilidade de persistir, desviando por caminhos alternativos mas, com consciência, compreensão e participação colectiva. A falta de planeamento leva a que seja dada a palavra apenas aos que mandam, aos governos, cuja incompetência de governar os leva, por sua vez, aquilo que é mais óbvio. Cortar é a palavra chave, quando o que se procura é saber como se vai crescer. Um plano, precisa-se, nem que seja o de evacuação. É tempo de sabermos para onde vamos, a que velocidade e que alternativas estão ao nosso alcance. Sobre isto, estamos em silêncio absoluto. Só sabemos que não sabemos para onde vamos. Este vazio bem poderia constituir uma oportunidade para repensar o futuro. Não se trata de exigir isto ou aquilo mas, tão só, saber, na modéstia dos recursos disponíveis e também com a consciência do mérito que enquanto povo possuímos, onde estaremos amanhã?. É uma questão de vontade própria que não deve ser entregue a terceiros tanto mais com tão baixas qualificações em matéria de olhar o futuro.

António Domingos Abreu