Em Outubro de 2010 escrevi neste espaço uma opinião que intitulei de "O orçamento avestruz" no qual apresentava o exemplo de um Professor Auxiliar que tendo entrado para a carreira em 2002 estaria a receber em termos reais no início de 2011, 67% do que esperaria receber caso a tabela salarial de 2002 se tivesse mantido. Com os recentes cortes dos subsídios de férias e de Natal para os funcionários públicos e com a inflação que se verificou em 2011 e se espera que venha a verificar em 2012, este Professor Auxiliar vai receber no final de 2012 um salário real que é 55% do que esperaria estar a auferir, isto sem contarmos com os aumentos de impostos directos e indirectos, o que provavelmente fará com que esteja a receber 50% ou menos. Por muito pessimista que fosse este Professor penso que não era imaginável em 2002 que dez anos depois estivesse na situação em que se encontra. Ao verem o caso deste colega, os novos Doutorados vão preferir fazer a sua carreira no exterior e abandonarem, de vez, a ideia de serem Professores em Portugal. Tendo sido aluno de três Professores que ganharam o Prémio Nobel de Economia (Edward C. Prescott em 2004, Leonid Hurwicz em 2007 e Christopher A. Sims em 2011) sei bem a importância de estar em contacto e aprender com os melhores e, por isso, passado mais um ano, continuo a afirmar que um país que nada faz para atrair ou manter os seus melhores é um país sem futuro e não vale a pena enterrar a cabeça na areia. No entanto, nem tudo é negativo, por isso termino, tal como fiz há um ano, com uma nota positiva. A área de Economia da Universidade da Madeira continua a liderar as Universidades Portuguesas no ranking das citações por autor de artigos publicados na última década. Pese embora a falta de incentivos, continuarmos a dar o nosso melhor é a forma inteligente de resistir.

Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrático da Universidade da Madeira