Não é boa prática dividir o mal pelas aldeias, sobretudo quando o mal está à vista de todos. Ninguém estaria à espera que Pedro Passos Coelho encontrasse, 120 dias após a tomada de posse do seu governo, a receita ideal para avançar com a reestruturação administrativa que o país tanto precisa. Porém, daquela dissertação com mais de uma hora sobre o Orçamento de Estado para 2012, do ministro Vítor Gaspar, voltou a sair desbobinado um pobre cozido à portuguesa, de couves envinagradas, batatas e milho, servidas em prato frio, aos clientes do costume. Por mais dietas ou cascalho que o povo engula, chegou-se a um ponto que não há receita fiscal que nos valha para cobrir uma despesa pública que está caramelizada, de pedra e cal. A continuar por esta via, por mais claras em castelo que se batam, teremos mas é bolo de formigueiro quando cá chegar o resgate financeiro. O ministro da Economia rompeu ontem o silêncio para falar na inevitabilidade de tudo isto, lembrando que há vida para além da austeridade. E é verdade. Só que a imoralidade política que reina neste país ensinou-nos que a mudança pode ser um tremendo sufoco para uns e uma passagem pelo Éden para outros. Porque raio o comum dos trabalhadores pode ser despedido com uma indemnização equivalente a 20 dias de salário por cada ano de serviço, que nem lhe dá para comer, quando um deputado com 12 anos de parlamento e salário de 3.180 euros, tem direito a uma subvenção vitalícia de 1.526 euros, mais subsídio de reintegração? Será mais penoso ao ex-deputado na Assembleia Legislativa da Madeira – que tem a particularidade de poder acumular os cargos que bem entender no público e privado, recebendo, em regra geral, como prémio extra, cargos de chefia em departamentos do governo, de empresas públicas ou de autarquias – regressar à vida activa do que qualquer um desempregado? Num país tão desproporcionado ao nível da justiça social, num fosso quase tão colossal quanto a dívida soberana, não é boa prática dividir o mal pelas aldeias, sobretudo quando o mal está à vista de todos. É que nós somos forçados a reestruturar os nossos compromissos e encargos, não propriamente para minorar o impacto na nossa frágil economia familiar, mas para permitir ao Estado fazer face aos seus incumprimentos financeiros resultantes de uma gestão danosa do bem público. Nós temos de encontrar margem no nosso magro orçamento familiar para tapar os buracos da dívida pública. Nós substituimo-nos ao estado social e o governo reduz mais ainda as deduções de IRS, desprestigia as suas obrigações e despromove a mitos e a produtos da subsidiodependência direitos constitucionais na área da educação e da saúde. Nós somos forçados a inventar a nossa própria reforma administrativa. E o governo tarda em implementar a sua. Nós falamos de prioridades. O governo insiste em metas e objectivos. Nós procuramos cortar nas facturas. O governo procura facturar com as nossas costuras. Nós queimamos gorduras. O governo alimenta farturas. E disto estamos fartos.

Não é boa prática dividir o mal pelas aldeias, sobretudo quando o mal está à vista de todos.

Ninguém estaria à espera que Pedro Passos Coelho encontrasse, 120 dias após a tomada de posse do seu governo, a receita ideal para avançar com a reestruturação administrativa que o país tanto precisa. Porém, daquela dissertação com mais de uma hora sobre o Orçamento de Estado para 2012, do ministro Vítor Gaspar, voltou a sair desbobinado um pobre cozido à portuguesa, de couves envinagradas, batatas e milho, servidas em prato frio, aos clientes do costume. Por mais dietas ou cascalho que o povo engula, chegou-se a um ponto que não há receita fiscal que nos valha para cobrir uma despesa pública que está caramelizada, de pedra e cal. A continuar por esta via, por mais claras em castelo que se batam, teremos mas é bolo de formigueiro quando cá chegar o resgate financeiro.

O ministro da Economia rompeu ontem o silêncio para falar na inevitabilidade de tudo isto, lembrando que há vida para além da austeridade. E é verdade. Só que a imoralidade política que reina neste país ensinou-nos que a mudança pode ser um tremendo sufoco para uns e uma passagem pelo Éden para outros. Porque raio o comum dos trabalhadores pode ser despedido com uma indemnização equivalente a 20 dias de salário por cada ano de serviço, que nem lhe dá para comer, quando um deputado com 12 anos de parlamento e salário de 3.180 euros, tem direito a uma subvenção vitalícia de 1.526 euros, mais subsídio de reintegração? Será mais penoso ao ex-deputado na Assembleia Legislativa da Madeira – que tem a particularidade de poder acumular os cargos que bem entender no público e privado, recebendo, em regra geral, como prémio extra, cargos de chefia em departamentos do governo, de empresas públicas ou de autarquias – regressar à vida activa do que qualquer um desempregado?

Num país tão desproporcionado ao nível da justiça social, num fosso quase tão colossal quanto a dívida soberana, não é boa prática dividir o mal pelas aldeias, sobretudo quando o mal está à vista de todos. É que nós somos forçados a reestruturar os nossos compromissos e encargos, não propriamente para minorar o impacto na nossa frágil economia familiar, mas para permitir ao Estado fazer face aos seus incumprimentos financeiros resultantes de uma gestão danosa do bem público. Nós temos de encontrar margem no nosso magro orçamento familiar para tapar os buracos da dívida pública. Nós substituimo-nos ao estado social e o governo reduz mais ainda as deduções de IRS, desprestigia as suas obrigações e despromove a mitos e a produtos da subsidiodependência direitos constitucionais na área da educação e da saúde. Nós somos forçados a inventar a nossa própria reforma administrativa. E o governo tarda em implementar a sua. Nós falamos de prioridades. O governo insiste em metas e objectivos. Nós procuramos cortar nas facturas. O governo procura facturar com as nossas costuras. Nós queimamos gorduras. O governo alimenta farturas. E disto estamos fartos.