Passada mais de uma semana das últimas eleições regionais existe o distanciamento suficiente para uma reflexão serena dos seus resultados. A aritmética eleitoral mostra: o CDS recebeu directamente do PSD um número significativo de eleitores que transferiram o seu voto e afirmou-se, assim, como o segundo partido e uma alternativa de poder à direita; o PS não foi capaz de penetrar no eleitorado PSD nem de chamar a si os votos dispersos de protesto (Coelho, PND, PAN, MPT que representam mais de 20 000 votos) que lhe teriam permitido uma votação dupla daquela que teve e retirar a maioria absoluta ao PSD. Alguns tendem, agora, a esmiuçar erros de estratégia e de prática de campanha ou de marketing político. Outros procuram no candidato, na sua notoriedade e nas suas características próprias as razões para o resultado. Outros ainda apontam à lista de candidatos ou aos membros do ‘governo sombra’ ou mesmo aos membros do staff de campanha. Mas não é isso que verdadeiramente tem capacidade explicativa. Todos fizeram erros e acho mesmo que o PSD-M foi quem menos apostou numa linha certa: teve cartazes inqualificáveis, palavras de ordem incríveis, fugiu aos debates, apresentou apenas uma mulher nos 15 primeiros candidatos (contra 5 nas listas do PS-M), ofendeu tudo e todos, atropelou a ética com inaugurações em tempo de campanha, esbanjou recursos financeiros gigantescos em comícios, espectáculos e jantares afrontando a miséria de muitos, etc. De resto, ninguém fora da Madeira consegue compreender a vitória do PSD-M, como se vê no Expresso: “Afinal, Jardim viu as suas manigâncias financeiras denunciadas em plena campanha eleitoral, as suas obras públicas ridicularizadas, as misérias do seu regime tentacular e asfixiante postas a nu, o seu governo apontado como servidor de clientelas partidárias e de famílias amigas, mas nada disto, nem o distanciamento ostensivo do líder do PSD nacional e primeiro-ministro, nem sequer a inevitabilidade de os madeirenses virem a pagar duramente os desmandos de Jardim, foi suficiente para o derrubar” (Fernando Madrinha” Então porque ganhou o populismo (de Jardim e Coelho)? Porque continuam os madeirenses a confiar naquele que levou a Madeira a um humilhante resgate financeiro, que destruiu a Autonomia por muitos anos e que não tem qualquer capacidade de negociação face à República e aos credores? Porque foram penalizados aqueles que mais trabalharam no Parlamento (justamente o PS, o PCP e o BE)? Porque favoreceram os eleitores a entrada no Parlamento de projectos irrelevantes para a resposta decisiva que a Madeira e os madeirenses precisam nestes tempos de crise? Porque privilegiam o espectáculo e os partidos folclóricos? É um debate em aberto. Por mim avanço algumas explicações e preocupa-me mais do que erros e factores singulares com os factores estruturais que marcarão o nosso futuro. Primeiro: a estratégia de vitimização de Jardim continua a dar resultados, num quadro em que foi escasso o tempo para desmascarar e informar sobre as consequências da sua governação. Segundo: a capacidade de propaganda do regime é fortíssima com o Jornal da Madeira e estrutura ramificada de caciques e instituições a funcionarem na ‘perfeição’. Terceiro: a diabolização na Madeira dos socialistas e de Sócrates – amplificadas pela propaganda – mina fortemente a base eleitoral do PS-M tornando quase impossível a transferência de votos do PSD para o PS. Quarto: como resultado dos pontos anteriores a ‘marca PS’ não funciona como um activo importante na Madeira. Quinto: há um eleitorado madeirense que não vê TV, não lê o Diário nem ouve as principais rádios (Antena 1 e TSF). Sexto: há medo na sociedade madeirense e fortes dependências das benesses que o regime distribui desde empregos a subsídios. Na óptica do PS-M o que há a fazer é lutar contra estes factores e preparar o futuro próximo, sob pena da sua completa irrelevância a muito curto prazo. Primeiro, um congresso e eleições internas que reforcem a imagem de responsabilidade dos socialistas (o que alguns tudo vêm fazendo para destruir na praça pública nestes dias…). Segundo, fazer uma aposta forte nas Autárquicas de 2013 porque com a nova limitação de mandatos em vigor e com a brutal austeridade que a coligação PSD/CDS aplicará todo o quadro de referência muda. Terceiro, reforçar as estruturas do Partido (não é por acaso que onde há trabalho concelhio e de freguesia os resultados apareceram nestas eleições) e abrir à sociedade, ou seja fazer do PS-M um partido transversal em que bases populares e quadros convivem num projecto comum de poder e de bem-estar para todos os madeirenses.

Maximiano Martins