Não foi à toa ou para descanso das hostes mais inconformadas que a 13 de Maio de 2010, o DIÁRIO dá novas funções a Luís Calisto. Desde então coordenador de publicações especiais, deixa por instantes rotinas contemporâneas para viajar pela história colectiva. Em vez de continuar a fazer ondas na levadia instalada, rebentação que não viria a abrandar, vira-se para a máquina do tempo. Em boa hora.

A pressa é inimiga da descoberta. O ritmo alucinante do jornalismo, embora necessário e cada vez mais acelerado, nem sempre é o conselheiro ideal numa era desprovida da procura elementar pela causa das coisas, pelas referências incontornáveis e pelas origens que determinam o futuro. Falta-nos por vezes tempo para as horas sem fim, para a pesquisa demorada e para o vital convívio com a memória. Só que esta fatalidade tem dias. Basta que haja um pacto com a procura curiosa pelas vivências que moram na margem da aventura colectiva. É essa tamanha disponibilidade para ouvir e ler bem de modo a poder contar melhor que percorreremos no livro.

Fez-nos bem que Luís Calisto tenha ido guardar as margens e, cumprindo com a nobre missão de informar, tenha ganho tempo para partilhar importantes descobertas, uma acção que nasce com o lançamento do DIÁRIO há 135 anos.

Segundo Luís Calisto, o primeiro livro da série ‘Nas margens da Madeira’ “junta anos de pesquisa profissional e lúdica, entrevistas publicadas e por publicar, longas gravações particulares com a voz de extraordinários contadores de histó­rias que a Madeira teve nas últimas décadas, documentos e tradição oral de famílias de renome que têm atravessado estes séculos. Resulta das inevitáveis e aturadas incursões no passado através da ‘máquina do tempo’ que os arquivos têm sempre com o motor ligado para viajar. E das obras publicadas pelos competentes investigadores madeirenses conhecidos do público”.

O livro está a léguas daquele rigor que caracteriza os escritos dos his­toriadores. É uma sorte que assim seja. Desta forma, a reconstituição de gestos e pensamentos, os dados encontrados, e a recriação aproximada das tra­mas, ajudam a desmontar “mitos hoje aproveitados conforme as conveni­ências”, assegura ao autor.

Na primeira das margens que o Luís Calisto percorre, há gritantes semelhan­ças com a actualidade. A proximidade “não visa a sátira à Madeira ac­tual”. Aliás, o autor dissipa dúvidas, ao garantir que escreve motivado por “devolver vida aos nossos esquecidos antepassados, nascidos nas ilhas ou fora delas, que deram o seu contributo à Madeira e à sua História”, “para proporcionar aos madeirenses do século XXI pistas velhas que ajudem à compreensão da surreal actualidade”, histórias fora da História, as vidas 'Nas margens da Madeira'.

Ir às Margens é ficar a conhecer o tamanho da nossa herança, de um “Diário” que modifica os hábitos dos funchalenses; que toma partido; que difunde o despique de competências; que denuncia; que lança críticas à gestão da Câmara; que prova, por meio de números correctos que lhe chegam à re­dacção, a injustiça dos impostos sobre o açúcar areado e mesmo sobre o de inferior qualidade; que agita a opinião insular; que alerta as autoridades para que actuem com sabedoria; que publica elementos comprovativos da maldade constante dos processos; que fala dos assuntos menos convenientes e que lança avisos. Há muitos. Cito um: “que a impiedosa fiscalização jornalística à comarca de Santa Cruz só terminará quando o juiz Canto se transferir para fora da Madeira”.

O “Diário de Notícias” é desde os primeiros dias “montra do descontentamento geral”. Mas, apesar das críticas gravíssi­mas, não se vê uma só acção judicial contra os redactores por abuso da liberdade de imprensa. Belos tempos!!! É certo que teve director preso e bens arrestados, que um amigo próximo fundou uma publicação rival e que alinhou numa campanha eleitoral contra o fundador. Outros tempos que se “actualizam sem complexos, compostos por altos e baixos, inerentes a qualquer entidade real”.

O Diário assumiu causas que ainda perduram. Comprometeu-se com os leitores e os anunciantes assumindo que, não sendo partidário, trabalhará por cima das quezílias eleitorais, sejam os candidatos quais forem. A postura ganhou lastro e simpatia. “Vá lá que temos jornais como o Diário para abrir os olhos a essa gente”, dizia-se. “Essa história saiu toda no Diário”, repetia-se.

Já nos últimos anos do século XIX, os guias espiritu­ais das beatas rezavam pela morte do Diário, a concorrência era desleal, os anúncios escasseavam de quando em vez e as recomendações eram entusiasmantes. O dr. Pestana sugeria que talvez fosse “aconselhável o Diário começar pela persuasão, pela pedagogia, cumprir a sua missão de defender a sua terra sem gastar espaço em confrontos de campanário, batalhas que só desgastam”.

A cooperação jornalística do Diário com a vida económica da Madei­ra foi uma das batalhas assumidas. Só que nesses tempos idos, tal como agora, o DIÁRIO influente também era catalogado de “incendiário”.

O livro relata dois pormenores de grande alcance que confirmam posicionamentos de ontem e de hoje:

- de haver quem pretenda mandar no “Diário”, de ma­neira a que se publique apenas o que interessa, o agradável, o doce, o fa­cilmente digerível, aquilo que possa ajudar o negócio e dilatar os lucros. A velha história de subordinar o colectivo aos interesses de cada um.

- de haver um Cyríaco que também descobriu a arte de ficar mal visto com toda a gente. Tudo em nome da independência do “Diário”, numa terra pequena... uma terra de vilões, barões e tubarões, feita de margens onde o essencial se esconde.

* Texto lido na apresentação que fiz do livro 'Nas Margens da Madeira', a 14 de outubro