Aviso já, para que a eventual leitura deste pequeno texto não seja feita com preconceitos, que vou pôr de lado as considerações morais e éticas sobre as consequências sociais das medidas anunciadas no passado dia 15, pelo Primeiro-Ministro. Vou colocar-me daquele ponto de vista frio, objectivo e de "razão de Estado" que os políticos do PS, PSD e CDS gostam de "vestir" para dar o ar de que estão ao serviço do povo e dos interesses da Nação. Naquele mesmo lugar que o português conformado e fatalista ocupa quando começa a pensar aflito, sobre o que vai ser de si e dos seus e opta por apoiar a argumentação dos poderosos. Vou também fingir que o aumento da pobreza e do desemprego, que as políticas de baixos salários e a desregulação das leis laborais através imposição da "lei da selva", que a destruição das poucas garantias que constituíam os apoios na Saúde, na Educação e na Segurança Social, que a filtragem imoral de notícias, não me indignam só porque identifico a ameaça financeira internacional como a única e possível "prioridade nacional". Ainda assim, não fico tranquila com estas medidas porque é impossível deixar de ver que não se tratam de respostas a um problema mas do reforçar de um sistema. Se fossem respostas trariam soluções objectivas e requeriam a distribuição equitativa de sacrifícios mas estas medidas apenas ajudam a sobreviver o sistema que provocou a crise e atrás delas outras virão ainda mais duras. O poder político já fez uma opção fria, objectiva e "científica": este sistema tem de sobreviver e deve ser limpo de todos "contratempos" que preconizam o bem-estar para todos. Enquanto estamos atordoados, discutindo a sua inevitabilidade, elas avançam fingindo que são temporárias e para o bem comum. É preciso acordar e agir porque há alternativa à pobreza e à injustiça!
Isabel Cardoso - Professora