Anteontem à noite, à hora a que o primeiro ministro do meu País anunciava o mais duro golpe na vida dos portugueses das últimas décadas, o presidente reeleito da minha Região aterrava no Aeroporto da Madeira, depois de quase uma semana em Bruxelas, não se sabe muito bem a fazer o quê. Explicações, comentários? Nada. Depois de uns dias de retiro, o presidente do Governo, o mesmo que nos últimos dois meses tanto teve para dizer aos madeirenses, em três ou quatro aparições públicas por dia, ontem, depois de ganhar as eleições, não tinha nada a dizer. Nem uma palavra de conforto, nem um discurso de esperança, nem sequer uma crítica a Lisboa. Nada. O presidente apenas disse que vai reflectir. E vai reflectir enquanto lhe apetecer.

Pois eu também tenho estado a reflectir e não tem sido pouco. A diferença é que não posso reflectir enquanto me apetecer. Pelo meio, eu, como a esmagadora maioria dos madeirenses, tenho de trabalhar. Eu, tal como a esmagadora maioria dos madeirenses, vivo de um só ordenado, não acumulado com nenhuma reforma. Já o presidente que um dia levantou o dedo contra Lisboa pela ameaça de lhe cortarem parte dos rendimentos, não tem agora nada a dizer quando se confirma que grande parte dos madeirenses vai mesmo perder uma fatia significativa do seu salário anual. Estranho conceito de justiça social. Inédita forma de solidariedade.

Ao fim e ao cabo, nada que nos surpreenda. Adiante!

Surpreendente mesmo é a atitude do Governo da República. O mesmo primeiro-ministro que disse na sua tomada de posse que jamais se escudaria na desgovernação de Sócrates para assumir medidas impopulares, afinal, não tem feito outra coisa desde que foi eleito. Certamente com alguma razão,porque não é aceitável encontrar um Estado que gastou, em seis meses, 70 por cento do que tinha para gastar em 12 meses. Nem é de esperar tanta conta por pagar, tanto desleixo, tamanhos desvios nas contas públicas nacionais. Mas isso não dá o direito a Pedro Passos Coelho de, a cada dia que fala, anunciar mais uma medida de austeridade.E muito menos de aprovar um Orçamento de Estado tão gravoso como o que acaba de oferecer aos portugueses.

Percebe-se a ideia do primeiro-ministro que quer ficar par a História como um reformista, um homem sério, austero e rigoroso, de vistas largas. Mas Passos Coelho tem um problema: no seu ângulo de visão não cabe a classe média portuguesa. Por um olho, vê - e ainda bem - os mais desfavorecidos. Pelo outro vê - e mal - as preocupações dos mais favorecidos. Cabe aqui perguntar: e nós Pedro? Nós, os que trabalhamos sol a sol, os que contribuem regularmente com os seus impostos, os que não podem fugir às malhas do fisco, afinal, que tem este Governo para nós? Mais impostos, menos regalias. Mais austeridade, mais horas de trabalho, menos salários. Voltamos ao mesmo triste fado nacional em que são os trabalhadores que sustentam o País. Pagam pelos que não têm - alguns deles nem querem ter - e pagam para os que têm e querem ter mais.

Não ouvi do primeiro-ministro nenhuma medida especialmente gravosa para os mais ricos, para as grandes fortunas, para os bancos. Mas percebi que o chefe do Governo acredita que quem ganha 1000 euros por mês pode muito bem descontar bastante mais. Saberá Pedro Passos Coelho o que é fazer vida com mil euros por mês? Claro que não! Tem o mérito de subir na vida sem grandes agruras, pelo que se sabe. E ainda bem. Mas isso não garante que o povo que dirige tenha a mesma sorte.

Uma nota final para lembrar que este Governo, que se mostra forte com os fracos e fraco com os fortes, começa a dar de Portugal uma imagem algo provinciana quando procura ser mais 'troikista' que a própria 'troika'. A ânsia de mostrar serviço às lideranças europeias pode ser bom para o ego de quem passa ao lado da crise, mas será fatal para quem a vive todos os dias.

Nos últimos anos habituei-me a ouvir de alguém que respeito uma frase motivadora: "o melhor está por vir". Nos últimos meses penso que esse estímulo perdeu o sentido. O pior ainda está por vir!