Reconheço que, gostando muito da minha cidade, Funchal, não a percorro tanto quanto gostaria de o fazer. Aos sábados de manhã contudo, desperta-me esse apelo para a visitar, pois há o normal "encontro de café" para pôr a escrita em dia (e convenhamos algum "diz que diz-se por aí"). Ultimamente não o tenho feito com tanta regularidade, pois o número de aproximações na rua, de anónimos a pedirem emprego para o próprio, para um irmão, para um filho, etc... é muito grande e gerador de consternação, dada a minha dificuldade em sistematicamente ter de responder que "de momento temos os quadros de pessoal cheios". No passado sábado a situação apresentou-se-me francamente melhor, pois não tive nenhum contacto e regressando calmamente ao estacionamento onde tinha o meu carro, parei num quiosque de jornais. Ao meu lado, aparece um indivíduo, que me reconhecendo, comenta sarcasticamente, uma notícia sobre José Sócrates. Do outro lado surge a resposta de uma Senhora que não conhecia e que entretanto chegara: "Olhe, quem arranjou um emprego para o meu filho, foi o PS e o patrão está aqui ao meu lado". Cumprimentei-os e fui-me embora, sem comprar jornais e a pensar comigo próprio sobre o que ouvira. Fui chamado à terra e fui chamado a uma terra onde o mundo empresarial é permanentemente confundido com a realidade política-partidária e onde há responsáveis por esta "perversão". Mas esta confusão entre o mundo empresarial e o político, permitiu-me especular, agora no sentido inverso, isto é da empresa para a política: Se eu analisasse agora esta gestão regional em modos empresariais, confrontando em ambiente de Assembleia Geral, um Executivo (tipo Conselho de Administração) que fez muitas coisas, mas que, não sabe explicar exaustivamente, quanto deve, quais as prioridades futuras, quais as relações com os credores, como vai fazer face ao seu serviço de dívida, deparando-se com a declaração de uma Comissão de Inquérito Parlamentar (tipo Auditores), que a dívida da Instituição RAM é de metade do que efectivamente atingiu ? Julgo que, em ambiente de Assembleia Geral, os accionistas teriam muitas perguntas a fazer aos representantes desse Executivo e não todas, as mais abonatórias. Só que na política tudo é diferente e os valores em causa, pautam-se por parâmetros manifesta e perigosamente alheados do dia-a-dia do cidadão comum. Escrevo este meu artigo, antes de saber da comunicação do Senhor Ministro das Finanças, mas após leitura do DN de 29/09, constato que a dívida regional é afinal de 6,3 mil milhões de euros onde se insere a da ANAM com 180 milhões de euros. Confronto essa dívida com duas realidades: a primeira é a de que para o próximo Inverno, haverá uma redução da capacidade aérea para a Madeira (exceptuando os voos Funchal-Porto Santo) de 16% em relação ao Inverno passado; a segunda é a de que e apesar dos sérios avisos do mercado turístico, as taxas aeroportuárias na Madeira continuam a ser escandalosamente altas (40% mais altas que a média nacional) e que quando comparadas com destinos que nos são concorrenciais, apresentam os seguintes números: Aeroportos - Funchal 21,17 euros, Tenerife 10,89 euros, Nápoles (Riviera Italiana) 12,85 euros, Sharm Al Sheik (Egipto) 11,08 euros. Todos estes valores por passageiro. No seguimento das minhas contas sobre o fluxo de turistas para a Madeira e tomando boa nota dos números oficiais, teremos no próximo Inverno, outrora estação preferencial para este destino, uma capacidade aérea de transporte de turistas que não ultrapassará a ocupação de 16.000, das nossas cerca de 30.000 camas hoteleiras. Com base nestas reflexões há que medir muito bem o sucesso das apostas e dos modelos de desenvolvimento passados. É porque, Senhores do Poder: O Mundo mudou e modelos que eram louváveis há uma ou mais décadas, ficaram caducos e a gravidade está no facto de não se terem apercebido disso. Por isso: Confiança, precisa-se!
António Trindade, Empresário