Ao pensar no envelhecimento vem muitas vezes à nossa mente ideias como doença, solidão, abandono, diminuição do prazer físico e intelectual, morte, com ou sem sofrimento prolongado, perdas de entes queridos, dor, e tantas outras que na sua conjugação podem criar estados de tristeza e desânimo em quem começa a envelhecer. Ficar mais velho é um bocadinho de tudo o que disse no parágrafo anterior, mas também é uma imensidão de coisas fantásticas e extraordinárias que importa sublinhar. Envelhecer é ganhar experiência, é olhar o mundo com mais serenidade e menos pressa, é ter tempo para estar, não só com os outros, cada vez mais seleccionados, mas também consigo mesmo, num diálogo aberto e profundo. Envelhecer é olhar para trás com graça e rir, rir, rir muito de tantas histórias passadas, que na altura nem sempre soaram a alegria, mas que agora nos parecem tão mais leves e banais. Envelhecer é desdramatizar o quotidiano, porque ele não é assim tão dramático se o olharmos com a coragem de quem já fez uma grande caminhada e ainda tem outras para percorrer. Envelhecer é aceitar as limitações, sem tristeza nem raiva, mas como um facto ao qual nos temos que habituar, valorizando os ganhos e não problematizando as perdas. Afinal não é assim que vivemos durante toda a vida, ganhando e perdendo. Perde-se o útero para ganhar a mama, perde-se a mama para ganhar a descoberta, perde-se o colo para ganhar autonomia, perde-se a infância para ganhar a adolescência, perde-se a adolescência para se ganhar a possibilidade de ser adulto, perde-se a impulsividade para se ganhar bom senso e perde-se a ânsia de viver para se ganhar conforto na vida. Envelhecer é uma oportunidade que a vida nos dá para continuarmos o nosso caminho, para ensinar e aprender, é afinal mais uma possibilidade de troca. Por tudo isto os mais velhos só têm razão para rir, sorrir e gargalhar muito, afinal já viveram tantas coisas, têm tantas memórias e recordações, estão mais disponíveis para o presente e com menos ansiedade face ao futuro, por isso podem apreciar cada instante da vida, rindo e sorrindo de pequenas coisas, perdendo muito tempo a mimar os bons momentos, aqueles em que corpo e alma participam e que os impede naturalmente de alimentar tristezas. Rir de nós e dos outros é um acto saudável de desvalorização do que já não vale a pena dar importância. Rir das crianças, da chuva que bate nos beirais, da neve que transforma a cor das arvores, do sol que transporta calor e vida, da flor que teima em desabrochar, do cão que se deita à espera de um afago, afinal rir de tudo, rir da vida. Rir não é só uma forma de não entristecer, rir é ser gente com alma e coração e sentir-se muito orgulhoso de estar vivo apesar de tudo. Rir é um acto saudável, permite ao corpo relaxar, diminui as tensões expande a energia e irradia equilíbrio e harmonia. Rir é prevenir estados de tristeza que quando se eternizam podem criar doença. Rir é partilhar alegria e boa disposição é contagiar os outros e criar uma rede de riso onde cada um tem um papel tão importante como o outro, rindo sempre à sua maneira. O contágio também é positivo quando nos traz oportunidades de em parceria nos influenciarmos em função de objectivos sentidos como positivos. Por isso é que é muito bom ter amigos, companheiros de cartas, de bordados, de leitura, de futebol e damas, de culinária e pintura, tudo é um pretexto para não quebrar a rede do riso e assim construir um tapete de passagem, tão forte e tão consistente, que quem se sinta inseguro e triste possa aí suportar a sua dor e em grupo reaprender a rir. Se envelhecer é uma inevitabilidade, rir é uma obrigação.

Manuela Parente, Psicóloga