1. Juro que tinha prometido a mim mesmo que esta semana queria escrever sobre outras coisas. Queria fugir do debate político, do saco de gatos em que fomos metidos, da dívida que não pedimos mas que temos de pagar, da vergonha que sinto por ver que, apesar da muita obra feita, temos um governo trapaceiro. Que mente, que esconde, que comete várias irregularidades, que deixou a Madeira na bancarrota. Juro que não queria voltar a este tema de tão gasto que está. Mas é impossível. É impossível não insistir na necessidade de um apelo à reflexão. Não me atrevo a dar indicações de voto, mas arrisco voltar a pedir aos madeirenses que façam um esforço para interpretar os sinais que estão à vista de todos. Que pensem um pouco, sem clubismos, nem partidarismos, nem bairrismos. Que pensem no buraco financeiro que aumenta a cada semana que passa. Pensem quem terá ganho com isso. Pensem! Façam esse favor a vós próprios. Não é forçoso que a maioria mude de opinião, mas se pensar um pouco já será muito bom para a democracia na Madeira. Se se libertarem dos grilhões do pensamento será um grande passo, mesmo que mantenham a opinião que têm agora sem pensar. Pensem, por exemplo, se em tempo de tantas dificuldades é normal haver tantos jantares à borla. Se é normal tanta inauguração, reinauguração e visitas, algumas delas importantes, de facto, outras absolutamente ridículas. Se é normal esta táctica de arrebanhar velhinhos para dar palmas. Se é correcto apresentar programas com obras já feitas depois de várias vezes prometidas. Se é aceitável a destruição de cartazes. Se é certo fechar o aterro do Funchal um dia antes da manifestação para evitar que as pessoas lá fossem. Se é necessário um partido claramente vencedor, com uma máquina bastante profissional e organizada, utilizar subterfúgios perfeitamente evitáveis. Claro que não! 2. "Preocupem-se com a vida de vocês, que vão ter um futuro mais negro do que o meu". A frase foi proferida ontem por Alberto João Jardim, o presidente do Governo Regional, o líder e candidato do PSD, o conselheiro de Estado. Falava para os jornalistas. E disse tudo. Se há afirmação certeira de Jardim nos últimos tempos, esta é cruelmente verdadeira. Eu, como jornalista, confesso que me sinto ameaçado por tais palavras. Mais: sei que o meu futuro vai ser mais negro que o passado, o presente e o futuro do presidente do Governo. Porque vou ser obrigado a pagar pelos seus erros de governação. Vou ser chamado a contribuir muito mais para pagar uma cratera financeira que ele autorizou a criar. De igual modo, eu, como cidadão, não consigo esconder a minha preocupação em relação ao que aí vem. E não vai demorar muito. Insisto que não quero ser demasiado pessimista, mas a realidade mostra-me que, de facto, eu e a esmagadora maioria dos cidadãos desta terra vamos ter um futuro mais negro que o de quem nos conduziu até aqui. Analisando aquela frase por outro prisma, resta uma constatação: triste o líder que se congratula com o mal dos outros. Revela não apenas uma grande falta de visão e uma acentuada ausência de respeito, como também uma lamentável falta de carácter e de sentido de estado. Quem assim actua, não é um líder; é o dono da bola, um mandante, alguém que se comporta como um feitor. Neste momento, um malfeitor!