O cinema começou por ser uma coisa de feira. No início do século, o povo fazia fila para assistir a uma novidade tecnológica. Os primeiros êxitos de bilheteira têm títulos como 'Trabalhadores saindo da Fábrica' e mostram trabalhadores a sair de uma fábrica. Depois apareceu gente, os primeiros realizadores, que deram linguagem à tecnologia; descobriram por exemplo que a imagem de alguém a acender um fósforo, justaposta à de um incêndio, provocava uma leitura no público: Um homem ateou fogo. Chegou Griffith e Eisenstein, e colocaram o cinema ao serviço de ideologias, das suas e das dos seus governantes; e de repente o homem ateou fogo por uma razão, o homem-cinema era subitamente moral. Chegou o som ao cinema e toda a gente cantava, chegou a cor e era tudo vermelho berrante, mas na sua essência, pouco mudou nos filmes ao longo de um século. A ideia de uma sala, onde de um lado está a luz projectando imagens, do outro, na penumbra, as pessoas, pouco tem a ver com a comunicação do século XXI. Vivemos no tempo em que todo o receptor é ao mesmo tempo emissor de informação. Não é de estranhar, portanto, que o cinema esteja em crise e que as grandes majors americanas estejam a falir. Curiosamente os festivais de cinema continuam a crescer em todo o mundo. Quase um por cidade. Os filmes são vistos dentro de uma temática e as pessoas juntam-se por gostos em comum. Os filmes aparecem de todo o lado e não da América. O cinema é outra vez um evento social. O cinema morreu, longa vida ao cinema!

Filipe Ferraz, Realizador