Em maré de campanha eleitoral presidencial pela primeira vez vou votar em branco. Tive alguma esperança na candidatura de Fernando Nobre. Parecia-me que tinha tudo para ser bem sucedida atendendo ao seu extraordinário currículo em prol da humanidade, com todo um trabalho internacionalmente reconhecido, cuja experiência lhe deu de certeza uma visão do mundo, do homem e do que é o serviço público, bem diferente do comum dos políticos. Mas logo damos conta que a maioria dos portugueses não conhece bem nem a personalidade pública que é Fernando Nobre nem a sua acção na AMI nos teatros de guerra, miséria e sofrimento, mais variados do mundo. Acresce que um independente sem apoio partidário dificilmente vai longe. De certo modo faz-me recordar Maria de Lourdes Pintassilgo. Por outro lado a figura do candidato, pouco expressiva e a sua falta de capacidade de comunicar de uma forma cativante, aliada a alguma vaidade e sobranceria, definitivamente não consegue mobilizar o eleitorado. Francisco Lopes cumpre bem o seu papel como todos os candidatos comunistas. Segura o seu eleitorado e na hora H pode ser decisivo numa eventual derrota do candidato da direita. Defensor de Moura já teve elogios de membros da direcção do PS. Para além de não ter apoio partidário, é uma figura sem projecção nacional. No entanto, tem tido a coragem de enfrentar Cavaco Silva como ninguém, chamando à coação os pontos francos do actual presidente, coisa que Alegre ainda não foi capaz de fazer. Talvez, também, porque o eleitorado só tolera isso nos candidatos que não têm qualquer hipótese de ser eleitos e julga ser esse o seu papel. Manuel Alegre tem, em minha opinião, um perfil mais adequado para ser Presidente da República. Atendendo a que a chefia do estado é sobretudo uma função simbólica, representativa e eminentemente política, Manuel Alegre tem um conhecimento da cultura e da história portuguesas, bem como uma experiência política como deputado na Assembleia da República, que servem muito mais as funções acima referidas do que o perfil de Cavaco Silva, claramente um economista, cujo discurso e conhecimento são os únicos que domina bem. Duvido no entanto que alguns traços de personalidade de Manuel Alegre não se tornem num constante factor de instabilidade, pois parece-me que confunde frequentemente questões pessoais com questões politicas e melindra-se facilmente. Depois, a ideia de que em política se pode dizer tudo o que se pensa em nome da verdade, pode tirar espaço ao bom senso e proporcionar ainda mais instabilidade. Cavaco Silva é simplesmente irritante. Então desde que disse que qualquer um tem que nascer duas vezes para ser mais honesto que ele, tornou-se mesmo insuportável. É o político em Por-tugal há mais tempo no activo mas nunca se inclui na classe política nem assume responsabili-dades nenhumas, como se em 10 anos como Primeiro-Ministro e 5 como Presidente da República a sua assinatura não estivesse em lado nenhum. Que conceito tem ele de honestidade? Mas o mais grave mesmo é que para além das contas, o "Sr. Silva" não passa disso mesmo do "Sr. Silva" que não diz uma frase com o mínimo de interesse sobre qualquer outro assunto que não seja…contas e… frases feitas sobre o futuro, a esperança, a pobreza, os jovens, etc… Quanto ao candidato José Manuel Coelho tenho esperança que contribua, pelo seu atrevimento, irreverência e humor para fazer tropeçar Cavaco Silva e obrigá-lo a uma segunda volta. E aí vamos ver…mas para já voto em branco se até dia 23 nenhum candidato me convencer que merece o meu voto.
Paulo Santos