Um país que acarinha os seus jovens não lhes vende sonhos, nem ilusões. Não lhes ‘oferece’ falso conhecimento, da era fast-food ou Bolonha, como um passaporte para o acesso a um trabalho, quando o mais certo é ser um bilhete com destino ao Centro de Emprego mais próximo. É isto que se tem feito. Um trabalho para as estatísticas europeias, que são importantes, mas que dizem muito pouco na vida real.
E é por isso que hoje se assiste a uma nova vaga de emigração, porque os jovens não têm lugar num país sempre à beira ou no meio de uma crise. Financeira, política, social, de valores.
Quando se analisa a abstenção eleitoral e se faz uma condenação na praça pública dos mais novos, 'esses inconscientes cívicos', devia-se pensar um pouco mais a fundo e analisar a caixa negra do problema. Esta geração de desinteressados resulta de décadas de esquecimento. E é culpa de todos os governantes depois do 25 de Abril. Os jovens foram marginalizados anos a fio pela classe política, e não é por se ter rendido agora às redes sociais que leva a sua mensagem a estes destinatários. É que quem nasceu pós Abril é quase ostracizado por não ter vivido a revolução, por não saber o que custa a liberdade.
Se não se pode esquecer a História, também não se pode viver apenas desta. Porque os problemas de hoje são outros. A falta de liberdade é distinta, mas igualmente perigosa. É aquela que mantém os jovens amarrados aos apoios da família, até depois dos 30 anos, em substituição de um Estado Social decadente.
E face a isto, o Presidente que em Abril do ano passado ficou chocado com a “ignorância dos jovens” em relação à História do país fez um apelo a esta geração. “Vocês são a força da mudança e podem contar comigo”, disse Cavaco Silva depois da reeleição.
Um apontamento de hipocrisia ao qual apetece responder com ironia. As gerações mais recentes não são a força da mudança estão é a mudar-se em força para longe daqui. Os que têm a sorte de vingarem, de mostrar o seu potencial fora de portas, depois são laureados, que a classe política provinciana gosta muito de conceitos como ‘jovens de sucesso’, mesmo que não saiba capitalizar esse talento para o país.
Os que por cá ficam, abandonados à sua sorte, tornam-se alvos fáceis de movimentos populistas e radicais, que emergem em momentos de crise, quais profetas a devolver a esperança a gente que tem todas as razões para ter perdido a fé. E isto não é adivinhação, basta olhar para o que tem acontecido noutros países da Europa, para perceber que a História repete-se, com uma ou outra nuance. Recordar não chega para não repetir erros.