Nos últimos tempos, os portugueses têm aumentado as suas queixas por causa do desinvestimento no transporte público, um serviço essencial para uma sociedade mais sustentável e saudável. Aliás, nas recentes eleições presidenciais esse foi o principal motivo para os boicotes que se registaram em algumas mesas de voto no território continental. Aqui na Madeira esse descontentamento também tem vindo a crescer. Não me prenunciando (por falta de espaço) sobre as constantes remodelações das carreiras de autocarros da Horários do Funchal, gostaria, no entanto, de fazer uma apreciação sobre os preços que se praticam. Em Lisboa, uma viagem de autocarro custa 90 cêntimos, aqui no Funchal custa 1 euro e 10 cêntimos. Lá, no início deste ano, aumentou 6% mas aqui chegou aos 10%. Se o bilhete na Horários do Funchal já custava quase 18% mais do que em Lisboa, este ano a diferença passou a ser de 22%. Se juntarmos a isto o sentimento generalizado dos funchalenses de que são mal servidos em matéria de transporte público, estão reunidas as condições para um maior descontentamento e uma redução ainda maior na taxa de ocupação dos autocarros. O governo regional atribui um subsídio de cerca de 8,5 milhões de euros por ano aos operadores de transportes públicos na Região. No entanto, ao que parece, esse valor não é suficiente para cobrir as despesas e, por isso, a Horários do Funchal deu mais este passo de gigante no preço de cada viagem. Para além de acautelar a necessidade de uma gestão eficiente desta empresa pública, seria importante que os preços não aumentassem, mesmo que, para isso, fosse necessário subir o valor do subsídio. A manutenção dos preços poderia galvanizar a maior apetência que vai existindo para não usar tanto o automóvel no interior do Funchal, em particular devido ao preço dos combustíveis e dos estacionamentos. Ganhavam-se hábitos mais saudáveis para a cidade e para os cidadãos, até porque, associado ao uso do transporte público estão também as deslocações a pé, nem que seja para as paragens. Onde ir buscar o dinheiro para subsidiar melhor os transportes colectivos? Aos 34,5 milhões de euros que o governo regional reservou em 2011 para o desporto. Ainda mais porque uma boa parte desse valor é para novas infraestruturas, quando nem temos dinheiro para manter as já existentes nem pessoas para as utilizar. Os subsídios ao futebol são outro exemplo do mau uso dos dinheiros públicos num momento de crise como este. Os próprios adeptos do Nacional e do Marítimo compreendem cada vez menos que tenham de pagar mais nos transportes e na educação dos seus filhos para alimentar um espectáculo com artistas importados.
Hélder Spínola