
Sou um dos priviligeados que veio ao mundo quando o país já se familiarizava com a democracia. Mas nunca vi umas eleições em que houvesse tanta propensão para protestar com o voto. E nem me refiro ao exército de mais de 189 mil desalinhados, inconformados, contestatários (ou o que lhe queiram chamar) da política regimentista e que celebrizaram José Manuel Coelho como o novo colosso da oposição madeirense. Falo dos mais de 191 mil eleitores que foram às urnas com o propósito de depositar o boletim em branco ou ainda dos 86 mil que fizeram o seu protesto constar num voto nulo.
E, se por um lado, o número de nulos e brancos somados quadruplicou nestas eleições presidenciais, sendo por isso uma advertência clara ao deserto árido onde se manifesta, num diálogo de surdos, a sapiência da política nacional - onde a partidarização se descredibiliza abrindo espaço aos movimentos de cidadania - , por outro, a taxa recorde de abstenção (53,4%) não deve ser arrolada no ‘dossier’ do marasmo cívico ou do puro laxismo, porque a abstenção é também um produto eleitoral, sendo, portanto, um sintoma da inconsequência do voto.
Ainda que não seja regra, acredito que muitos dos abstencionistas estão cansados de sufragar programas eleitorais que hoje são uma coisa e que amanhã acabam sendo rectificados e tomam um novo rumo, de 180 graus. E, a tónica da campanha, fértil em acusações mútuas entre os dois principais candidatos, contribuiu para enublar aquilo que deveria ser a transparência do sentido de voto de cada um deles, nas mais variadas matérias do domínio da magistratura de influência do futuro Presidente da República de Portugal. Cavaco Silva, por exemplo, revelou num só dia – na noite da consagração de vitória à primeira volta – mais do que disse ao longo de toda a campanha. Lamentável. Mas, num país de excentricidades, o mais incrível nem foram os abstencionistas, os votantes nulos ou brancos. Ou os candidatos que abriram o jogo político após serem eleitos. Pior, foram mesmo os ‘boicotantes’. Na República Democrática do Congo, lembro-me que há coisa de cinco anos, dezenas de mesas de voto foram reabertas no dia seguinte às primeiras eleições livres em 40 anos, para decidir quem será o novo Presidente e os membros do Parlamento, isto depois do acto eleitoral ter sido manchado por incidentes - mesas de voto destruídas e observadores internacionais alvo de provocações. Em Portugal, a experiência de quase 40 anos de eleições livres, dá azo a um outro tipo de boicotes, mais rebuscados: organizam-se piquetes do ‘não voto’ para atazanar as cabeças da freguesia, porque o comboio foi suspenso, porque o metro prometido há nove anos ainda não chegou ou porque a extensão de saúde foi encerrada.
O protesto popular é legítimo e pode estar repleto de razão. Agora boicotar eleições presidenciais, com o apoio de autarcas, só para que o protesto ganhe amplificação pelo megafone mediático, parece-me estupidez, pequenez e iliteracia. Em que terra boicotar é melhor ‘arma’ do que votar? Talvez nas savanas do Congo. Na Vila Nova de Monsarros, por exemplo, aquela gente trocava o direito de voto por uma birra orquestrada. Mais parecia uma caricatura da democracia participativa.