As noites eleitorais são momentos únicos para o exercício da arte política do golpe de rins, sobretudo para tentar encontrar argumentos para todo o tipo de resultados, desde a vitória esmagadora à derrota de proporções idênticas. Ficaram famosos os discursos do PCP, do tempo de Álvaro Cunhal e de Carlos Carvalhas, que ganhava sempre, mesmo que tivesse levado uma banhada de todo o tamanho.

Domingo, por cá, só houve um vencedor: José Manuel Coelho. Mais ninguém está em condições de sorrir perante os quadros de resultados. A maioria até deve ter vontade de chorar. Alguns até fizeram por desaparecer, para não serem confrontados com perguntas incómodas. Nem mesmo os que apoiaram Cavaco Silva, que conseguiu desbaratar mais de 24 mil votos em relação às eleições de 2006, podem falar em vitória . PSD e CDS perderam e por larga margem.

Derrota estrondosa, mais do que um massacre, sofreram PS e BE. Sobretudo os socialistas que deveriam liderar os apoios a Alegre, mas que optaram por assobiar para o lado. A derrota é de tal ordem que o seu candidato nem consegue reunir os votos dos militantes dos dois partidos. Simplesmente, uma tragédia.

Também perdeu o PCP, porque a votação em Francisco Lopes, homem da máquina comunista, foi pouco mais do que residual. Tem a desculpa de ninguém o conhecer e de ter servido, apenas, para cumprir calendário, mas os números são preocupantes. Sobretudo porque em Outubro é a doer.

Mais uma vez, independentemente de gostar, ou não, do estilo - assumo claramente que não gosto -, José Manuel Coelho ganhou e foi brilhante. Podem surgir todas as teorias de especialistas de que foi um voto de protesto e mais não sei o quê, mas o certo é que mais de 46 mil madeirenses decidiram votar no deputado do PND e na sua forma de fazer política. Ou não fazer, como preferirem. O mesmo deputado da bandeira nazi, das acusações contra tudo e todos - muitas sem qualquer hipótese de defesa para os visados e do mais violento que se possa imaginar -, mas também o candidato que gritou, via televisão, o que o Povo diz nos cafés, nas ruas e em casa: 'Eles' são todos uns vendidos! Mesmo que 'eles' sejam eleitos com o voto desse Povo, que não sejam todos 'vendidos' e muitos sejam gente honesta. Mas esse 'povão' gosta de meter tudo no mesmo saco, porque é agradável e, nos últimos tempos, até fica bem nos meios que se dizem intelectuais. Mas isso são contas de outro rosário.

Nas regionais, o PND vai capitalizar muito deste apoio ao seu candidato que, claramente, alterou o nome do partido: já ninguém sabe o que é a Nova Democracia, mas conhece o 'partido do Coelho'.

Finalmente, perderam os abstencionistas e com eles o País. Por muito que o politicamente correcto, produzido por politólogos elevados a génios mas que debitam asneiras em série, diga o contrário, a abstenção é apenas uma expressão de irresponsabilidade. Quem não se digna a sair de casa para ir votar, até pode ter opinião sobre tudo e mais alguma coisa, mas pode ficar com ela para si. Não votar é, em primeiro lugar, desperdiçar uma democracia que custou tanto a conseguir. Mas também é, acima de tudo, balda e desleixo.

P.S. - Uma referência especial para aquela senhora, com mais de 80 anos, que a custo descia dos degraus escorregadios da escola da Quinta do Leme, debaixo de chuva, depois de ter ido votar. Por coincidência, na mesma mesa que eu, quando eram já 17h30 de domingo. Não ficou em casa, apoiou-se na bengala e na neta e votou. Infelizmente, os mais novos, a massa esmagadora de abstencionistas, não dá valor à democracia, algo que esta senhora só conheceu numa fase já adiantada da vida.