Com a eleição de Cavaco Silva encerra-se um ciclo eleitoral e abre-se uma nova etapa da cooperação estratégica. A curiosidade radica em constatar como será a relação entre Presidente e Governo, se Cavaco fará uma presidência musculada e se Sócrates aguentará a pressão externa dos mercados e a pressão interna: do Presidente, da sociedade e do PSD, sedento de poder. Por cá o desafio está no processo de reconstrução tendo por base as calamidades de 2010. As eleições de Outubro decorrerão num cenário balizado, por um lado, pela emergência de fenómenos políticos populistas que capitalizam a desilusão e o descontentamento - com um discurso a gosto do ouvinte - e por outro lado, pela máquina eleitoral do PSD. Com a reconversão do cenário do 20 de Fevereiro como pano de fundo, Alberto João Jardim passear-se-á de inauguração em inauguração, com a conversa do bandido, e do "ajudei-vos, ajudai-me" entregando, se necessário for, chaves de casas que nem portas têm, apimentando o discurso com os habituais "elogios" ao Primeiro-ministro. Lá virá, outra vez, a tese do inimigo externo e o truque, habitual, de lançar os partidos da oposição uns contra os outros, em suma, dividir para reinar. Entre verdades e inverdades lá atirará à cara os favores que fez, os lugarezinhos que deu, as migalhas que atirou a certa oposição que lhes toldou as ideias e hipotecou o futuro. Enquanto uns já estão em plena campanha outros estão a dormir, aconchegadamente, com a botija de água quente aos pés e gorro de pompom na cabeça, inebriados de ilusão e de deslumbramento, fazendo-se de mortos na esperança de serem reconhecidos pelo seu "silêncio responsável". O povo está ver, depois não se queixem, nem arranjem desculpas.

Jaime Leandro, Técnico Superior do TC