Não valia a pena insistir para dar as roupas que deixara de usar a quem delas precisava. "Quem é que quer isso? Já não há pobres!" Para a minha mãe, pobres só os "Maranhotos". E esses, verdade seja dita, não podiam dar uso aos seus vestidos. Melhor fazer retalhos. Viviam na parte mais alta da aldeia, numa casa verde, sem telhado. Passavam grande parte do dia um pouco abaixo, na mercearia-tasca da minha tia Rosa. Um dia, voaram, uns atrás dos outros, para Inglaterra. Na casa verde, sem telhado, apenas três irmãos inúteis, ébrios. A matriarca está em coma há anos. Terá sido atacada por skinheads. A carga alimenta várias teorias. Numa, a senhora caminhava bêbada pelas ruas de Londres. Noutra, desatinou ao encontrar uma filha, trabalhadora do sexo, a atender vários clientes ao mesmo tempo. A reforma dela continua a chegar à terra. A minha tia é que lha administrava: pagava as contas de electricidade e de água dos três rapazes e punha o resto no banco. Já não lhas paga. O vinho matou o irmão mais novo, o André. Ligou-me a minha mãe com a notícia, como faz sempre que alguém morre por lá: "Estava com a barriga cheia. Tinha comido dois pratos de sopa e bebido uma taça de cacau." O irmão mais velho, o Carlos, não quis ficar sozinho. Juntou-se ao irmão do meio, o Paulo, que havia um tempo se mudara para casa da namorada. Bateu com a cabeça na parede ou no chão. Acidente? Homicídio? A Polícia de Segurança Pública chamou a Polícia Judiciária. E o Paulo matou-se "com remédio de secar ervas ou de matar lagartixas". Três mortes num mês. Que razia. Eram umas personagens - eram "as" personagens. Davam-me bom dia e alegravam-se ao ouvir resposta. Fizeram-me rir até doer quando a minha madrinha Daniela casou: ofendidos com a ausência de convite, foram ao galinheiro da mãe da noiva, roubaram uma galinha, fizeram festa. Não sobra um membro da prole em São Vicente. Maria, a irmã que ali casara e ali se reproduzira, morreu volvido um ou dois anos - com uma doença associada ao consumo de álcool. E a minha mãe passou a dizer apenas: "Já não há pobres." Eu ainda insisto: "Não faltam é pobres por aí." E ela retorque: "Como os 'Maranhotos', não." E eu argumento: "Isso era miséria." Talvez seja mesmo impossível quem está na casa dos trinta compreender o que foi padrão de vida para quem está na casa dos 60. Usamos escalas diferentes. Esperemos que a crise não nos obrigue a descer a fasquia ao ponto de achar que só são pobres os "Maranhotos" deste país.
Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público