Sempre duvidei da eficácia do dia de reflexão, como o que vivemos hoje. Parece-me um atestado de menoridade política que se passa aos eleitores. Uma forma de o legislador lavar as mãos quando a democracia ainda era uma criança. Agora, mesmo com atitudes infantis, a nossa democracia é adulta e poderia viver bem sem estes preciosismos. Estes e aqueles outros que quase nos impedem de falar de política hoje e amanhã, até às 8 da noite. Este dia de reflexão vem acoplado a outro elemento curioso: basicamente os portugueses não são dados a grandes reflexões políticas. Se o fossem, não teriam necessidade de um dia especial para reflectir. Mais: se reflectissem mais amiúde sobre a política e os políticos, certamente teriam sido consequentes. Ou seja, esta reflexão é mais um dia de descanso do que outra coisa qualquer. Sinceramente não acredito que algum português dispense hoje uns minutos que seja para pensar seriamente em quem vai votar amanhã. Quem já decidiu fê-lo nos últimos dias ou semanas e quem ainda não sabe, provavelmente deixará para amanhã, à boca da urna, num acto que terá tanto de dever cívico como de irresponsabilidade política. Por outro lado, a reflexão a que hoje obriga Portugal inteiro não promete grandes resultados porque quando o voto é feito quase por clubismo ou por tradição, não há ideia, projecto ou sequer denúncia, por mais grave que seja, que altere comportamentos. Independentemente das decisões de cada um, o importante é participar. E participar, em democracia, começa pelo voto em cada eleição possível. Pena que muitas vezes essa participação se resuma ao voto, de tempos a tempos, como acontece com a maioria dos cidadãos que se dizem apolíticos. Mal sabem eles que a conformidade e o comodismo estarão entre as piores formas de fazer política de maneira involuntária.