José Vieira Tenho acompanhado a evolução da indústria do turismo na Madeira, e vejo que, igual ao que aconteceu ao açúcar, ao vinho e à banana, esta é mais uma "galinha dos ovos de ouro", que devido à ganância e à promiscuidade dos nossos empresários e governantes, está em "morte lenta". O açúcar, deveriam talvez ir a Demerara e aprender alguma coisa sobre qualidade, diversidade, inovação e marketing. O vinho, finalmente estão a aprender e talvez um dia cheguem lá. A banana, ainda vamos a tempo de trocar a quantidade pela qualidade (criando uma marca própria e vendendo-a). Quanto ao turismo, a crise mundial actual só veio acelerar o evidente e inevitável resultado da ganância e falta de visão dos grandes empresários hoteleiros e dos nossos governantes, de há 25 anos até hoje. Trabalhei na hotelaria nos anos 80, quando ainda oferecíamos um produto de qualidade, quando ainda se cultivava o "bem receber" e não defraudávamos as expectativas dos nossos visitantes. Hoje em dia, desprofissionalizamos a indústria hoteleira com salários de miséria, recibos verdes, "outsoursing" e renegamos a formação e os bons profissionais. (a maior parte está agora a trabalhar no estrangeiro). Através dos "time-share" e de todo o tipo de "shared ownership", vendemos a nossa região "a pataca ao quilo" por 20/30 anos para depois permitir que esse capital fosse para o Brasil, Cabo Verde, etc. Não é de admirar que agora, com esta crise, nem dinheiro para as despesas correntes haja. Em casa que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, portanto, uns dizem que os empresários não fazem o suficiente pela promoção do destino Madeira, outros, que o governo não contribui o suficiente. Como "taxista" que sou actualmente, apetecia-me sugerir que se dissesse aos empresários hoteleiros o mesmo que disseram aos táxis, "vocês não estão vocacionados para o turismo convencional". Sugeria também que começassem a alugar os quartos à hora, que talvez se coadune melhor com a falta de qualidade do serviço prestado (cama, toalha e água quente e de resto mais nada). Esqueceu-se o pequeno comércio/serviço, diminuindo drasticamente a receita interna e directa, de grande importância para a região e a sua população. O turismo "pata rapada", a quem vendemos a nossa terra por dezenas de anos (quebrando assim um ciclo de excelente publicidade gratuita boca a boca), só utiliza os super-mercados e os autocarros, nada mais. As nossas levadas e veredas estão mal cuidadas, mal sinalizadas e por vezes nem são seguras, fisicamente e criminalmente. Existe pouca segurança/patrulhamento nos miradouros e levadas. No entanto, temos um "carro de assalto" diariamente a passear pelo Funchal com 6/9 agentes a transmitir má imagem da segurança na região. Através de uma protecção exagerada, fizemos da nossa floresta uma bomba relógio e quase a perdíamos. Construímos "vias rápidas" e túneis para servir a indústria, as pescas e a agricultura que não temos, descurando ou mesmo fechando totalmente as estradas mais pitorescas e turísticas. Os acessos a algumas das zonas mais bonitas da Madeira, são poucos, maus ou nenhuns. Como "taxista", posso afirmar que hoje em dia é muito difícil encantar um turista com a beleza da nossa ilha sem ele se cansar de túneis, asfalto e cimento. Entregamos a quase totalidade dos acessos ao mar, gratuitamente aos grandes hotéis, perdendo oportunidade de criar zonas de lazer, com acesso gratuito sim, mas com serviços pagos. Criamos um Aqua-Parque a 20km do Funchal, um parque temático a 50/60 km, e temos uma cidade morta quase todos os dias e todas as noites Poderíamos sempre oferecer um excelente produto, a bom preço na origem, compensando através da receita interna gerada na ilha com bom gosto e simpatia. Mudemos de rumo e política quanto antes. Sobre o dinheiro para a promoção, que se imponha uma taxa, e, quem não tiver dinheiro cá, que vá ao Brasil buscar. Com os hotéis às costas, eles não fogem de certeza. A Madeira não é só de meia dúzia, é de todos os Madeirenses, que embora não sejam tontos, estão é cegos, a caminho do abismo, atrás de uma gente que só tem olhos mas é na barriga. Acordem antes que seja tarde.