Na Europa e no caso concreto de Portugal estão as actuais gerações, a minha incluída, a trilhar um caminho de responsabilidade para com as gerações seguintes e vindouras? A resposta é infelizmente negativa. O problema começa pela nossa responsabilidade na redução da natalidade que, para além de minar o potencial de crescimento económico, leva a que em conjugação com o aumento da esperança de vida, um crescente fardo seja transferido para as novas gerações, expresso nos crescentes encargos para o Estado Social com a manutenção dos sistemas de segurança social e de cuidados de saúde. Mas a nossa irresponsabilidade agrava-se quando não queremos nem ouvir falar em aumentar a idade da reforma (vidé o caos em França a este propósito ou o facto de até há bem pouco os gregos se reformarem aos 55 anos), nem em aceitar contribuir para custear um sistema universal de cuidados de saúde até agora tendencialmente gratuito. Como poderão as novas e futuras gerações com um peso demográfico cada vez menor assumir tais encargos? E alguma analogia, particularmente no contexto de alguns países europeus, pode ser estabelecida relativamente aos encargos com um endividamento público excessivo. Pagar no futuro para ter já tem sido a regra. Inevitávelmente mais impostos e taxas pela utilização de serviços públicos prestados incidirão sobre as novas gerações. É certo que beneficiam e beneficiarão de todos esses investimentos efectuados com recurso à dívida. Mas também é certo, que apesar de sobre esses investimentos nada terem decidido sobre elas recairá uma significativa parte da factura. Mas desviemos agora a nossa atenção para o mercado laboral e a sua dualidade. Uns, os que já estão, blindadamente protegidos, outros os que querem entrar, ou seja, os mais novos sofrem as agruras do desemprego, ou então sujeitam-se a trabalhar a recibo verde ou a contrato a prazo. Por se insistir na protecção dos que estão, impede-se a criação de um ambiente favorável à contratação dos mais jovens. É isto exemplo de responsabilidade entre gerações? Será assim tão difícil assegurar um compromisso entre flexibilidade e segurança que garanta os interesses de todos? E que dizer do estado do ambiente que vamos deixar aos nossos filhos e netos. Ainda que como europeus a nossa consciência possa estar mais tranquila, ainda assim é inevitável a pergunta. Estamos a fazer o que devemos para afastar ou no mínimo atenuar a maior ameaça com que estamos confrontados, consubstanciada nas alterações climáticas, que tem por causa - a ciência já o comprovou - o nosso modo de vida? Dei-vos alguns exemplos daquilo que pode ser visto como sinais de egoísmo e irresponsabilidade da actual geração para com a seguinte. Também nesta vertente estamos longe do equilíbrio ideal entre os interesses legítimos dos indivíduos e os interesses da comunidade. Estado, sociedade civil e cidadania têm de repensar os seus actos à luz do impacto que deles derivará para as novas gerações. Mais sentido de responsabilidade e de solidariedade é necessário, até porque, por aqui, também passa a coesão do tecido social, já de si sobre crescente pressão devido à crise. A inversão do declínio demográfico é um imperativo. Políticas de apoio às famílias e à natalidade são cruciais. Possuir uma força de trabalho jovem e em expansão poderá constituir uma bênção e uma vantagem económica decisiva para uma Nação, se esta a souber preparar, educar e qualificar. A minha geração tem o dever e a responsabilidade indeclinável de assegurar a melhor formação às gerações seguintes. Não seremos verdadeiros cidadãos se não cumprirmos este dever. Infelizmente tenho o sentimento no que concerne a Portugal que a geração dos meus filhos, aquela já nascida depois de Abril de 1974, continua a registar um desfasamento significativo na sua formação em relação ao resto da Europa. De que estamos à espera?

Sérgio Marques