José A. P. Santos Não deixa de ser irónico que, numa fase da História em que a China, já a definhar nos estertores finais do seu período imperial, era invadida, ocupada, roubada e submetida pelas potências europeias, tenha nascido o mito do "perigo amarelo". Ou seja, as brilhantes tiradas de AJJ não são, propriamente, uma grande novidade… O "perigo amarelo", invocado por Guilherme II da Alemanha (esse "grande" político que, como todos nós sabemos, ajudou a cavar a sepultura para toda uma geração de jovens europeus...) em finais do séc. XIX, depressa encontrou o interesse de um público ávido de situações escabrosas e inquietantes, com pormenores suculentos para satisfazer a sua curiosidade mórbida pelas culturas mais exóticas, rendendo sustento para boa parte da literatura popular e da imprensa sensacionalista da época, para já não falar dessa deliciosa forma de comunicação que é o boato… (...) Mais uns anos se passaram desde então, e agora, a par da teoria da "guerra assimétrica" e dos ataques cibernéticos ao Ocidente, são as "lojas chinesas", autênticas pontas de lança de uma ofensiva económica patrocinada pelo Estado chinês, a nova face visível do "perigo amarelo" (deixando de ser parceiro do "perigo vermelho", entretanto extinto, e agora de braço dado com o "perigo castanho"); sábias palavras, as de AJJ, naquela tarde de domingo… Ora, vem tudo isto a propósito de uma nova dimensão que é dada ao "perigo amarelo", desta feita com um delicioso artigo de opinião de Maximiano Martins, intitulado "Um olhar chinês sobre a Europa" (DN, 11/07/2010, pág. 14), no qual o autor expressa um desassossego pelo que virá: a China enquanto dona e senhora dos destinos económicos do Mundo, relegando a Europa, a "velha Europa", para um lugar obscuro, quase de figurante, à mercê de migalhas. Baseou-se Maximiano Martins nas opiniões de um suposto expert chinês em Economia, o Prof. Kuing Yaman, que traça um futuro negro para a Europa, futuro esse que resulta de um estilo de vida e de uma forma de ser e de estar dos europeus que, reflectindo uma mentalidade típica, acabarão por ser a sua perdição. Não posso deixar de transcrever aqui uma passagem do artigo deste reputado elemento "socialista" português (sim, o socialismo português é especial…): "Dentro de uma ou duas gerações, 'nós' (os chineses) iremos ultrapassá-los [aos europeus]. Eles tornar-se-ão os nossos pobres. Dar-lhes-emos sacas de arroz…". Delicioso, simplesmente delicioso. Já tenho lido muito sobre "História Alternativa", com a derrota de Lincoln na Guerra Civil Americana, a vitória alemã na Segunda Guerra Mundial e essas coisas, mas há que admitir: a visão de helicópteros pesados chineses a largar sacas de arroz com a inscrição "Doação do Povo da República Popular da China" sobre ajuntamentos de europeus famintos, um pouco por toda a Europa, não deixa de ser… Bem, não deixa de ser interessante. Os pontos de vista do Prof. Yaman levam a que quem tome conhecimento das suas teorias, sinta a urgente e imperiosa necessidade de mudar a postura e a maneira de ser europeia. Se a Europa quer sobreviver enquanto pode, tem que mudar. Tem que impor a si mesma um verdadeiro super-PEC (se Goebbels estivesse entre nós, arrebataria as multidões com um discurso apelando ao "totaler PEC"). Só assim, talvez (talvez…) possa safar-se… e não tenhamos de estender a mão ao "arroz de caridade". Se o Prof. Kuing Yaman terminou ou não o curso num domingo, isso não sabemos, mas uma coisa é certa: a existir, o Prof. Yaman certamente não seria tão obtuso nas suas opiniões. Com efeito, estas teorias do "venerável sábio chinês", que tanta impressão causaram a Maximiano Martins, não passam, na verdade, de… um perfeito embuste! Pois é, a tal entrevista no YouTube de que fala o ex-deputado do PS na AR não é mais do que uma armadilha lançada a qualquer incauto, a ver se pegava (entrevistador e entrevistado falam, em mandarim, sobre a Exposição de Shangai, e apenas se juntaram as fantasiosas legendas). E não é que pegou? Pegou e de que maneira! Segundo o autor desta brincadeira (admitida muito antes da saída do artigo de Maximiano Martins), tentou-se demonstrar como, no que concerne à Internet, "as pessoas são crédulas e acreditam estupidamente em todas as asneiras que lhes impingem". Temos pena, Dr. Maximiano Martins, temos pena… mas deixe estar, que não foi o único. Um pormenor delicioso, no meio de tudo isto: o nome do reputado Professor chinês deriva de "Kouign amann", um bolo bretão de cozedura lenta, à base de farinha de trigo, manteiga e açúcar, e cuja designação resulta dos termos no dialecto bretão para "bolo" (kouign) e "manteiga" (amann). O que só vem dar razão ao ditado popular segundo o qual "com papas e bolos se enganam os tolos"…