O troar do foguetório às oito da manhã de quinta-feira bem podia brindar a grei regional com um despertar festivo, uma explosão atlântica de ânimo, fervor autonómico, auto-estima, espírito solidário. A Região acordava para o seu Dia solene. Mas se, com os estampidos vadios no céu, o estremunhado cidadão ia recordando glórias e desventuras de séculos, a nutrida girândola final produziu uma daquelas borrascas de mágoas, angústias e amarguras que a redentora Revolução dos Cravos prometera erradicar. Então, que raio de Dia comemorar? Talvez o Dia do pato-bravismo desenvolvimentista da 'Madeira nova'. Talvez a decadente e financeiramente sufocada autonomia - com as recentes cedências a Lisboa, a sagrada Lei de Finanças suspensa, os poderes fiscais adiados tal como o novo hospital, o voo de 2,5 milhões do OE, as interferências centralistas nas contratações da Função, o aumento do IVA, o garrote ao Centro de Negócios. Dia da Região bem cedo, foguetada e fanfarra reactivam o reflexo condicionado da crispação e do mal-estar. A rádio revela o fresco aumento de preços em bens de primeira necessidade. Um pacote de castigos sociais que Lisboa mandou à caça do país empobrecido, com o apoio do governo da Madeira. Para adensar o drama, as cúpulas da terra insular preparam-se para dar vivas à impudica qualidade da democracia maltratada, na manhã ainda encarvoada pelas crepes do simulacro de velório na véspera, às portas da Assembleia Legislativa. O Bloco de Esquerda protestara contra a 'morte da democracia parlamentar'. Porque o Dia da Região mais uma vez calaria os oposicionistas. Jaime Ramos explicou: nos Açores, onde manda o PS, a oposição também não fala. Justificação incoerente. Quando o negócio ameaça com incompatibilidades ou cortes nas argentárias mordomias dos deputados, o parlamento de cá recusa 'copiar' exemplos de fora. Coube evidentemente ao chefe do governo o primeiro número da jornada azeda. Ao chegar à Serra de Água, quis mostrar à ralé das ilhas como é que um dignitário se deve portar em público. Para a lição ser abrangente, fê-lo em directo pela TV, recusando-se malcriadamente a prestar declarações e destravando o ralhete do costume à RTP. Estava cumprida a bronca da praxe para dar nas vistas, para evidenciar poderio, para ao mesmo tempo consumar o clima de crispação cá na terreola, apavorar os desalinhados e pôr ao nível os jornalistas que ainda se julgam com direito a fazer perguntas a sua excelência que não se destinem a enaltecer a 'obra feita'. O chefe das Angústias, aliás, deu sequência ao episódio respondendo torto logo mais, na Praça da Autonomia: como é que a jornalista se atrevia a incomodar sua excelência para falar sobre a 'atitude de um garoto'? A 'atitude de garoto' era referência à postura do deputado do PND na sessão da Serra de Água: protesto espaventoso contra o silêncio imposto à oposição pelo PSD jardineirista. O deputado explicou depois que tinha pedido para falar por sugestão dos desalojados da freguesia, ainda à espera dos prometidos apoios. O farisaísmo disfarçado de homenagem levara o Dia da Região à Serra de Água. Mas, de facto, quem perdeu tudo no tremendo 20 de Fevereiro desespera, não por cerimónias engalanadas, mas por condições para refazer a vida. Foi neste ambiente deliberadamente vergasteiro, já parte integrante da idiossincrasia laranja, que as impantes entidades oficiais, escol da nossa Sociedade, planearam celebrar o Dia da Região. Até à hora do retemperador Te-Deum na Sé. Até aos concertos musicais. E aos berros no comício de Santo António, para assustar parolos. Tudo de acordo com a semana que estava a correr - e que já era de embrulhar o estômago. Proliferavam delirantes queixas. O chefe das Angústias denunciara que, ao abrir um pouco a porta à sua própria recandidatura, o nervosismo fizera saltar da 'caixa de pandora' as oposições, as sociedades secretas, lóbis dos mais diversificados objectivos e o jornalismo corporativista, a juntar aos tradicionais conspiradores Trilateral, Internacional Socialista e restos da América de Bush. Mau grado a reconhecida aptidão bélica do dr. Jardim, sempre aplicada a prudente distância do inimigo, faz espécie como é que todos aqueles organismos nacionais e internacionais coligados, com assustador arsenal de meios físicos e diplomáticos ao dispor, não conseguiram em 30 anos beliscar sequer a carreira de um homem sozinho numa ilha tão pequena. É obra! Ou então é por desconhecerem o dito-cujo e então estamos perante um delírio de imprevisível perigosidade. Um dos segmentos da cabala mundial, segundo o valioso alvo, chegaria em forma de biografia não autorizada, acerca da qual se comentou que 'O Rei da Madeira' está refém da Região. E nós a pensarmos que a Região é que está refém do realengo senhor! Tudo mentiras!, denunciou o chefe quando reagiu ao livro que ainda não leu. E aí, justiça lhe seja feita, manda a vasta experiência. Em técnica da mentira ninguém o vence. É a mentira permanente a sustentar o regime virtual onde sobrevivemos. Chefe ameaça com processos-crime que não interpõe. Rotula politicamente cidadãos que não lhe fazem vénias. Chama avençados a jornalistas honestos. Calunia jornais dizendo que são subsidiados por sociedades secretas. Hoje inventa: Fulano é comuna. Amanhã amplia: toda a gente sabe que Fulano é comuna. Voltaire revisitado. E faz de juiz em causa própria, diz que este é honesto, aquele é traidor, fecha-se aquilo porque é contra a Região. Joga de apito na boca. É a impunidade total. Eis senão quando arriba à ilhota uma deliberação da 'colonialista' ERC a desmontar oficialmente os embustes de há muito versados no atribulado cenário media regional. Ao fim de tanto tempo, o descarado atentado contra a informação aparece à lupa. Infelizmente, só depois de milhões do erário gastos em propaganda pessoal, desmandos que acabaram por colocar sob risco o mundo dos jornais, inclusivamente o próprio JM, que era auto-sustentável até lhe deitarem a mão. A ERC aponta o foco a uma gestão ruinosa e a uma dívida medonha, a exigir balanço e responsabilização. Claro que o chefe, na própria resposta que deu no primeiro interrogatório de Lisboa, já tentou ilibar-se, dizendo, sem que ninguém lho tivesse perguntado, que as decisões tomadas no processo não são do presidente do governo, mas do plenário do governo. Na linha de que nunca deve assinar nada. A culpa é sempre de outros. E os leopardos da nossa savana, se querem conservar espaço para sobreviver, abstêm-se de intervir nesses expedientes ou de participar em aventuras que o 'rei' possa confundir com disputa do poder. A vida continua. A descer pelo ocaso da autonomia decadente, vendida por dinheiro que prolongue poderes e mandatos. O método é inalterável: usar a Madeira para fortalecer o poder e não usar o poder para fortalecer a Madeira. Lá para dentro da cerca do laranjal, muito baixinho e evidentemente fora da órbita dos caudatários mais dependentes do presidencialato jardineirista, há quem vá recordando Mobutu, o 'Grande Leopardo' que evoluiu na carreira, antes de fugir do Zaire: herói da independência, ditador na decadência. O auto-proclamado 'campeão da autonomia da Madeira' também não se deixou cristalizar.

Luís Calisto