As nuvens negras que pairam sobre o nosso pais, ameaçam desta vez, de uma forma muito mais real a vida de todos os portugueses. Noutros contextos de crise que se foram vivendo, mesmo nos períodos mais agudos, não se sentiu de uma forma tão evidente e objectiva, a dimensão e perigosidade que a crise assume. Esta, não deverá ser completamente dissociada da crise internacional que ainda grassa, sendo que, as causas fundamentais, são de natureza estrutural. Nem nos períodos mais difíceis do pós 25 de Abril, lembro-me da intervenção do Fundo Monetário Internacional, em que a situação era realmente má, se perfilou um cenário tão complicado como aquele que caracteriza a actual situação do país. De facto, há todo um conjunto de factores que se conjugam de uma forma particularmente "eficaz" para tornar a situação do país insustentável e a exigir medidas drásticas que contenham rapidamente a degradação, não só do deficit do Estado, como também, e principalmente, do desequilíbrio face ao exterior. Desde os problemas da conjuntura interna que são conhecidos de todos nós e que já foram inúmeras vezes referenciados, como os da conjuntura externa, em que avultam os constrangimentos subjacentes à crise do sistema financeiro, o preço do petróleo, o arrefecimento de algumas economias de países com reflexos ao nível das exportações e do turismo, entre outros, deixam o nosso país numa posição muito melindrosa. Se a tudo isto juntarmos a impossibilidade de tomar medidas de cariz monetário, a margem de manobra que nos resta é muito reduzida. O "efeito milagroso" que, por exemplo, a desvalorização da moeda proporciona, impulsionando as exportações e reduzindo as importações, deixou de ser possível, pelo menos, de forma unilateral, tal como acontecia até à adesão ao Euro. Ou seja, estamos metidos num autêntico "colete de forças" que nos impede de fazer muitos movimentos e não temos outra possibilidade senão utilizar os instrumentos (poucos) que temos á nossa disposição. E é particularmente difícil a conciliação de todas as medidas que são necessárias adoptar, sem que se ponha em causa a própria sustentabilidade do tecido económico do país. As medidas restritivas que foram tomadas e outras que se seguirão…, influenciarão de forma sensível o poder aquisitivo da população em geral, o que, desde logo, implicará uma redução do consumo. Isto significa que muitas famílias irão reestruturar a sua matriz de despesas de forma a se adaptarem a uma nova realidade. Desta forma, aquelas despesas que são mais susceptíveis de poupança, como é, apenas a título de exemplo, o caso do vestuário e das férias, entre outras, terão uma outra ponderação no âmbito dos orçamentos familiares. Naturalmente que estes sectores se ressentirão deste contexto, nomeadamente ao nível das vendas, o que, em alguns casos, poderá pôr em risco as próprias empresas. Bastará pensarmos um pouco naquilo que representa o tecido económico do país para termos uma ideia do alcance que estes constrangimentos poderão causar, nomeadamente ao nível do Emprego. No caso do Turismo e pensando no caso concreto da Região, com a agravante das recessões que ainda atingem os principais países de origem dos turistas, incluindo os nacionais, a situação é deveras preocupante. Ou seja, há que ter razoabilidade nas medidas restritivas, de forma a que, na ânsia da "cura", não estejamos a criar um autêntico barril de pólvora no campo social e económico. Concomitantemente com tudo isto, temos o desafio maior, que constitui a estruturação de uma economia mais competitiva. Enfim, mais palavras para quê?... A missão não sendo impossível é, no mínimo, muito complicada.
Sílvio Costa