José Côrte O Administrador do além mandou chamar Manuel Coxo, e em fracções de não segundos, porque no além não há tempo, apresentou-se para saber o motivo da chamada. Tens 85.800 euros a receber pela tua última passagem no mundo dos mortais, Euros, perguntou, Sim, euros, a moeda que substituiu o escudo que usavas quando por lá andavas. Curioso Manuel Coxo perguntou, E tenho a recebê-los porquê, Alguém achou por bem que o estado deveria repor o que por direito lá tinhas a receber, O quê, insistiu para compreender, Os dias de trabalho mal pagos de sol a sol, as dores que padeceste pela ausência de uma boa assistência médica, os músculos que cansaste de tanta vereda andar, o ensino que não tiveste, os livros que não leste, as vezes que te feriram a vista, os dentes que te arrancaram, enfim, o que tinhas direito e não te deram enquanto lá estiveste, E para que me servem agora esses 85.800 escudos, Euros, corrigiu, Sim, euros, para que me servem, Servem-te para nada, apenas estou a cumprir o regulamento que manda informar-te de tudo o que lá se passa e que envolva o teu nome, Esses 85 800 escudos, Euros, corrigiu novamente, Sim, euros, esses euros nem me servirão para a próxima vez que lá voltar, que de certeza não será para esse mesmo lugar que me deixou coxo de tanta canga, Tens razão, nem para a próxima estada terrena te servirá, no entanto ficas informado. Ah, ia-me esquecendo, ficas a saber também que os teus herdeiros, filhos, netos, bisnetos e trinetos, neste momento estão já à bulha lá em baixo para ver quem vai ficar com o teu quinhão, Estão, perguntou decepcionado Manuel Coxo, Estão, e não é pouco, comem-se, esfolam-se pelos teus 85 800 euros que para nada te servem, lamento, de pouco serviram os teus ensinamentos e o teu bom exemplo. Tempos depois Manuel Coxo voltou, com outro nome e noutro lugar, para tentar concluir a missão que não conseguiu concluir na última dura estada que por cá passou. O quinhão de cá de nada lhe serviu lá, e de nada lhe servirá cá novamente.