António Ferreira No ambiente familiar geralmente somos mais livres que num contexto social. Podemos ser iguais a nós próprios, ternos ou benevolentes, irascíveis ou impulsivos. Na minha casa somos uma espécie de clã. Não somos todos iguais, nem partilhamos opiniões políticas ou éticas. Digamos que a minha ética é férrea, mas a moral fluida. Os meus pais são moralmente inflexíveis, mas eu prefiro abstrair de fazer julgamentos aos outros ou de impor normas e valores. Prefiro burilar a minha alma sem perturbar ou julgar ninguém. O humor no seio familiar é variado, incide sobre vários temas, que vão do burlesco ao político, sendo este último, aquele que pretendo destacar. Os alvos mais comuns de chacota são os membros do governo da República. Os seus congéneres regionais também são visados mas de uma forma muito mais branda e simpática, digamos. Este diferencial de atitudes, de certo modo, dois pesos e medidas para uma mesma situação, faz-me lembrar que nem no doce lar sentimo-nos completamente seguros, como existisse dentro de nós um auto-censor e um sistema de auto-punição que nos impele a ter cuidado, prudência e reverência pelo líder e suas hostes. Este clima é típico de regimes autoritários. Está certo que supostamente vivemos numa democracia, mas este tipo de fenómenos e comportamentos lembram-me sempre como a liberdade é frágil e insegura, daí, caros leitores, a minha persistência neste tema.