Longe vão efémeros armistícios políticos, ainda que comovidos e coroados de flores, perdidos nas chuvas torrenciais de Fevereiro. Eis-nos, mais uma vez a querer saldar as eternas e convenientes contas entre a Região e o País, o chavão que volta não torna aparece no discurso político, no habitual brandir do gládio verbal entre a Quinta das Angústias, no Funchal e São Bento, (de cima) em Lisboa. Não surpreende mais este reactivar, pela enésima vez, do discurso estafado da dívida passada da monarquia e das repúblicas à Madeira do séc. XXI, o Santo Graal para os nossos graves problemas económicos, financeiros e, não tarda, sociais, insulares. Compreende-se: 2011 já está aí ao virar da esquina. Se o tempo é de acerto de contas com a História, comece-se cá em casa, pelo processo doloroso do povoamento e humanização da ilha, feito à custa da força do anónimo agricultor madeirense e dos colonos e caseiros de gerações passadas, escravos da exploração do mundo rural, às ordens da nobreza fundiária e mercantil madeirense, com o acordo do poder central, conforme autores madeirenses e não só - Veríssimo, Nepomuceno, Vieira e muitos outros têm documentado. Eles e uma memória colectiva de gerações, falam de como a generalidade da população rural madeirense foi vítima da prepotência de certos senhorios déspotas, (leia-se "A Canga", de Horácio Bento de Gouveia) por eles colonizada durante séculos, até ao 25 de Abril de 74, nessa forma de colonialismo desumano, o regime de colonia da ruralidade madeirense. Não faltará material e há uma imensidão de jovens qualificados, desejosos de trabalhar, eternos candidatos a estágio, com os currículos e candidaturas talvez a ganharem mofo nas secretárias de quem de direito no centro de emprego. Das contas da História fazem parte os episódios de colonização, de ocupação de terras, de domínio de povos de outros continentes, de erradicação de culturas, de barbaridades, na sequência do movimento da expansão marítima iniciado por Portugal - os Descobrimentos - no século XV, seguido à escala europeia de outros países. Mas também os novos países criados, o contacto com outras civilizações, o alargar horizontes de aprendizagem, em contacto humano, artístico e cultural e, claro, as contrapartidas económicas. Porque é assim a acção humana: a dualidade Bem e Mal das nossas origens arquetípicas acompanha os nossos actos em ganhos e perdas, dádiva e retorno. Qual o preço de tudo isto? Continuando com as contas da História, é sabido que o produto das culturas dos cereais, da cana sacarina, do vinho, permitiram à Madeira, nos tempos áureos, ser dinamizadora e financiadora de vários projectos nacionais, como a reforma da Universidade de Lisboa e expedições militares no Norte de África. Sabe-se que do ciclo do açúcar ficou um rico legado museológico e arquitectónico a merecer um lugar de relevo no Património Mundial, de que muito justamente nos orgulhamos: o Museu de Arte Sacra, a Sé do Funchal, o Convento de Santa Clara, a Igreja do Colégio dos Jesuítas e exemplares de arquitectura militar, o Palácio de S. Lourenço e o Forte de S. Tiago. Consta também que, mais recentemente, o Porto de Leixões teria tido o contributo financeiro madeirense. Mas procure-se saber todos os contornos da nossa História. As contrapartidas de que tanto se fala em relação aos submarinos de hoje, sempre existiram nos acordos políticos. O segundo acerto de contas que se propõe é com a nossa actual situação económica e social, pós Autonomia. Em época de crise, turismo a perder mercado, desemprego galopante, descontentamento e pobreza, responde-se, como outrora, com os ciclos migratórios, historicamente consolidados na nossa consciência colectiva, para as Demeraras de hoje. O problema é serem quase sempre as mesmas classes sociais a terem que abandonar a ilha, em busca de sobrevivência. A tão almejada Autonomia que iria permitir o adequado aproveitamento das nossas riquezas, pela proximidade da decisão, em favor de todos os cidadãos, continua a negar a tal justa distribuição. Como no passado, as oportunidades parecem depender, da classe social a que se pertence, do partido em que se milita, ou da subserviência que se pratica, dicotomias inaceitáveis em democracia. Não foi para isto que durante séculos se lutou pela Autonomia. A quem pedir responsabilidades pela situação das nossas actividades económicas regionais, a agricultura, a pesca, o artesanato, o turismo? Pelas decisões tomadas nos últimos anos em matéria de investimento? O que foi feito dos vários recursos financeiros de que dispusemos, orçamento próprio, verbas do orçamento do estado, programas comunitários e a dívida entretanto contraída? Desapareceu tudo no nosso novoriquismo autonomista? É São Bento que sabe? As contas, já!

Júlia Caré