NOTA PRÈVIA: o Estádio Soccer City Cerca de oitenta e cinco mil pessoas assistiram ao jogo de abertura, no estádio Soccer City. Este Estádio será também o palco da decisão final deste Mundial. Os melhoramentos realizados, entre os quais o aumento do número de lugares para noventa e quatro mil pessoas, o aumento do número de camarotes de oitenta e cinco para cento e oitenta e quatro, a remodelação dos vestiários, a instalação de novos holofotes e a construção da cobertura, implicaram um investimento correspondente a cerca de trezentos e onze milhões de euros, valor que ultrapassou a previsão inicial de cerca de duzentos e catorze milhões de euros. Foi possível ver nas imagens aéreas do recinto, que a forma arquitectónica adoptada reproduz um vaso artesanal africano, denominado “calabash”. A imponência deste Estádio, após a intervenção realizada, que permitiu dispor de todas as condições para acolher uma competição desta dimensão, traduz igualmente, a importância deste recinto para o futebol na África do Sul. Construído em 1986, foi o primeiro recinto desportivo do país, reconhecido oficialmente, para a prática do futebol. Em 1996, a África do Sul viveu um grande momento com a vitória da sua selecção na final da Taça das Nações Africanas, ao vencer a selecção da Tunísia por dois a zero e sagrando-se campeã. Para além da importância ao nível desportivo, foi neste Estádio que, o Prémio Nobel da Paz, Nelson Mandela fez o seu primeiro discurso após sair da prisão, em 1990. Este evento, que marcou a História da África do Sul, contribui para o simbolismo deste recinto para toda a nação sul-africana. O jogo O Grupo A deu o pontapé de saída do Mundial de Futebol 2010, na África do Sul, com o jogo inaugural a ser disputado entre a selecção anfitriã da África do Sul e a selecção do México. A selecção da África do Sul apresentou-se no jogo de abertura do Mundial com a responsabilidade de cumprir a tradição das equipas anfitriãs nos jogos de estreia: não perder. Com efeito, nas dezoito edições do Mundial, sete tiveram a equipa anfitriã no jogo de abertura. Em cinco desses jogos, a vitória pertenceu à equipa anfitriã. Nos outros dois, o resultado final foi o empate. Cumpriu-se a tradição. A equipa anfitriã não perdeu o jogo de abertura. Inaugurou o marcador aos cinquenta e cinco minutos mas depois, por um erro defensivo, acabou por sofrer o golo do empate, a onze minutos dos noventa. Além da pressão inerente à qualidade de equipa anfitriã, pesou outro tipo de responsabilidade/ pressão. Sendo o primeiro mundial de futebol no continente africano, naturalmente, os jogadores da selecção sentiram a pressão e o peso da responsabilidade para cumprirem um desejo de toda nação, sobretudo depois das palavras do Presidente sul-africano, que afirmou querer ficar com o troféu no País. A selecção do México foi considerada, pelos entendidos na matéria, como a equipa favorita, pela prestação que teve mas também por praticar um futebol rápido e bastante ofensivo. Na primeira parte do jogo, foi realmente a melhor equipa. Concretizou as melhores oportunidades, mas não acertou na baliza. Na segunda parte, assistimos a uma equipa sem grande inspiração, muito aquém da qualificação de equipa rápida que se anunciou. Tendo em conta o percurso da selecção mexicana ao longo do apuramento e dos jogos de preparação, sobretudo o jogo disputado com a Itália, actual detentora do título, geraram-se expectativas que não se concretizaram. A selecção do México apresentou-se como uma equipa melhor preparada, mas que no teste de hoje, não conseguiu passar. Uma pequena curiosidade. O historial da participação da selecção do México em jogos de abertura dos campeonatos do Mundo é negativo. Em 1930, perdeu com o Uruguai. Resultado final 4-1. Em 1950, perdeu com o Brasil. Resultado final 4-0.Em 1958 perdeu com a Suécia. Resultado final 3-0. A selecção da África do Sul apresentou-se, aparentemente, mais serena mas envolvida na pressão do primeiro jogo. Acabou por sofrer uns quantos sustos na primeira parte, perante um México muito mais ofensivo. Na segunda parte, concretizou uma organização de jogo mais equilibrada, que acabou por resultar na marcação do golo inaugural do mundial, colocando a equipa à frente do marcador. O golo libertou os jogadores da pressão e a partir daí, viu-se uma equipa a reagir melhor mas ainda com algumas falhas. Tal acabou por acontecer, com uma distracção da defesa que permitiu o golo à selecção do México. Do conjunto de equipas que disputam a fase de grupos, os entendidos consideram que a selecção sul-africana tem possibilidades de passar aos oitavos de final mas, tal como se viu neste jogo de abertura, terá de repensar a defesa e resolver algumas lacunas no ataque. A superioridade indiscutível do México na primeira parte justifica o resultado da partida com o empate a uma bola. Acaba por ser um resultado justo por aquilo que a selecção do México fez na primeira parte da partida e, pela reacção que a selecção da África do Sul conseguiu ter na segunda parte, acabando por marcar primeiro. Esta não foi a primeira vez que as duas selecções se defrontaram. Poder-se-á dizer que a selecção mexicana tem melhores jogadores no seu plantel. Mas, Carlos Alberto Parreira, o seleccionador brasileiro ao serviço da África do Sul é mais experiente, pelas várias participações que teve em mundiais, e não é a primeira vez que se apresenta como seleccionador da equipa anfitriã. Em 1994 comandava a selecção do Brasil que se sagrou campeã. Esta experiência terá permitido o trabalho necessário junto da equipa, para contrariar o favoritismo da selecção do México. Aliás, o seleccionador brasileiro não se mostrou descontente com o resultado final e as substituições realizadas indiciam que o empate já seria bom. O técnico mexicano também tem um vasto currículo. Antes de ser treinador foi jogador de futebol, tendo inclusivamente participado no Mundial 1986, no México. Em 1994, foi assistente do técnico Miguel Mejía, no Mundial dos Estados Unidos. Em 2002 foi técnico da selecção mexicana, na Coreia do Sul e Japão. O seleccionador do México Javier Aguirre disse, antes do jogo, que os seus jogadores não se intimidavam com a pressão dos adeptos maioritariamente da equipa adversária, baseado na convicção que a experiência do plantel, seria capaz de corresponder. Há que reconhecer a experiência de muitos dos jogadores, até porque jogam nas ligas europeias mais competitivas, mas não foi suficiente para derrubar os “Bafana Bafana”. No caso da África do Sul, o plantel inicial contava apenas com três jogadores que jogam fora do país, todos na Inglaterra. A partida inaugural – a análise técnica de leigo na matéria A selecção do México começou o jogo com a posse de bola. Fica para a História do mundial 2010 como a primeira equipa a pontapear a bola. Cedo demonstrou porque é considerada uma das equipas mais ofensivas. Antes do minuto dois, já a defesa da África do Sul estava em apuros. O atirador do México falhou e saiu o primeiro canto para o México. No plano das faltas, a África do Sul inaugurou a estatística do jogo faltoso. A dupla Guilherme Franco e Carlos Vela mostraram porque são considerados dois jogadores importantes, ainda que sem eficácia nos remates. Ao minuto treze o México contabilizava dois cantos. Ao minuto quinze, na sequência de uma falta, a África do Sul teve a oportunidade de inaugurar o marcador. Mas o remate saiu longe da baliza. O capitão sul-africano não teve engenho suficiente e toda a equipa mostrava-se demasiado parada. Para a estatística fica o registo do primeiro cartão amarelo: Juarez do México, ao minuto dezoito. Viram-se grandes jogadas individuais do jovem atleta mexicano G.dos Santos, considerado pelos entendidos, o melhor jogador em campo. E efectivamente teve uma prestação que merece este reconhecimento. Os primeiros vinte minutos de jogo viu-se uma selecção do México a surpreender e uma selecção da África do Sul cautelosa a proteger as redes. Ao minuto trinta, o guarda-redes da África do Sul negou o golo a Franco. Passados dois minutos, mais uma situação de perigo para a baliza sul-africana. O ataque constante da selecção do México acabou por resultar no golo marcado por Carlos Vela, mas que estava em fora de jogo. Os protestos no banco do México não tinham razão de ser. A atenção do fiscal de linha foi precisa e a repetição da imagem no momento do passe permitiu concluir que o golo era irregular. Seguiu-se outra vez Franco, na sequência de lance de bola parada, que arremessou mais um ataque à baliza sul-africana. A primeira situação de perigo real da África do Sul aconteceu apenas no término da primeira parte do jogo, com boa resposta da defesa do México. Na primeira parte a selecção da África do Sul não atacou. Manteve o bloco defensivo. Ao contrário a selecção do México manteve sempre, uma postura ofensiva e por isso chegou muitas mais vezes à baliza adversária. A segunda parte começou com substituições. A África do Sul fez sair Thomas que foi substituído pelo lateral mais ofensivo Masilela. Masilela estreou-se na selecção sul-africana em Janeiro de 2006 e participou na Liga das Nações Africanas. Ao minuto cinquenta e dois, o técnico mexicano fez entrar o jogador número dezanove que substituiu Paul Aguilar, o qual foi um dos melhores jogadores na primeira parte. O México mudou a organização de jogo face a esta substituição mas continuou sem eficácia. A explosão de alegria aconteceu ao minuto dez da segunda parte. Finalmente o esperado golo da selecção da África do Sul. Foi marcado pelo jogador número oito, que também se estriou na selecção, em Janeiro de 2006 na Liga das Nações Africanas. O golo aconteceu sem qualquer hipótese de defesa para o guarda-redes mexicano, mas com alguma responsabilidade para a defesa mexicana. Uma África do Sul muito mais eficaz procurou a vitória e conseguiu. O México não adormeceu mas também não concretizou o seu favoritismo Após o golo, outro cartão amarelo para o jogador mexicano Torrado, capitão da equipa pela falta sobre o jogador africano. O guarda-redes da África do Sul protagonizou uma defesa sensacional perante um grande remate de G.dos Santos, o que evidenciava o empenho na reacção por parte do México. A partir daqui, ambas as equipas procuraram marcar. A África do Sul apresentou-se na segunda parte com maior velocidade, face a um México que parecia não acompanhar. Uma segunda grande oportunidade para a equipa da África do Sul, poderia ter resultado no segundo golo, não fosse a má pontaria do jogador número nove. O banco acreditou que seria possível mas o jogador atrapalhou-se e falhou. Após este remate de quase golo, o México preparou a segunda substituição. Entrou Blanco para o lugar de Carlos Vela, no lado esquerdo do ataque. Seguiu-se mais uma defesa do guardião da baliza do México para mais uma grande oportunidade da África do Sul, em que o jogador número dois pede penalti, mas sem razão. A terceira substituição do México aconteceu com a saída de GuilhermeFranco, um dos melhores jogadores da selecção, que em vinte e um jogos, marcou sete. Foi substituído por Hernandez, atleta que se estreou a 30 de Setembro de 2009, pela selecção e que desde então tem tido uma excelente prestação. Em treze jogos marcou sete golos, tendo sido um jogador fundamental no apuramento do México. O México persistiu no ataque e finalmente, ao minuto trinta e quatro da segunda parte, o jogador mexicano ao serviço do Barcelona, Rafael Marquez marcou o golo do empate. Foi o seu décimo primeiro golo ao serviço da selecção do México. O jogador aproveitou uma falta de atenção da defesa da África do Sul que “ficou a ver a banda passar” e garantiu a igualdade. Se na primeira parte era o México o justo merecedor para estar à frente, na segunda, o México perdeu-se na organização. Só numa falha da defesa sul-africana teve a oportunidade de igualar o marcador. Depois de sofrer o golo do empate, a África do Sul fez a sua primeira substituição. Fez sair o jogador número dez. Entrou o jogador número dezassete, Bernard Parker, jogador que integra a equipa campeã da Holanda. O México ainda voltou a assustar a baliza sul-africana nos últimos minutos de jogo, mas sem sucesso. Em cima do minuto noventa, a bola ao poste da baliza mexicana, deixou o estádio em euforia. Os três minutos de compensação foram impróprios para cardíacos. Tivemos uma parte final confusa com os jogadores sem perspectiva do objectivo de vitória. O Seleccionador brasileiro ainda tentou uma terceira substituição, mas não chegou a tempo porque entretanto o árbitro deu por terminado o jogo. A arbitragem teve uma boa prestação. Breve apontamento sobre o segundo jogo do mundial Estádio Green Point, (Cidade do Cabo): Uruguai 0 – França 0 As 4 equipas que compõem o Grupo A concretizam os seus jogos no primeiro dia de competição. Duas notas breves: I.Todos recordam o apuramento polémico da França. A santa mão de Henry não está esquecida. A França é uma daquelas selecções que, na opinião de muitos entendidos do mundo do futebol, se não estiver num campeonato do mundo, parece que falta alguma coisa. Nada mais errado! A França já foi campeã do mundo mas, não parece que tal facto lhe permita ter o referido estatuto de insubstituível. Não se deverá confundir a hegemonia de uma nação, com a sua selecção de futebol. No caso português, estaríamos condicionados a invocar a Era dos Descobrimentos para justificar a hegemonia da nação portuguesa no mundo, e em consequência o favoritismo da nossa selecção de futebol. II.O Uruguai já foi campeão 2 vezes, em 1930 e em 1950. Os entendidos dizem que a selecção poderá surpreender, lembrando a prestação em 1950, quando venceram o Brasil na final. Esperemos pela prestação da França nos restantes jogos. Os entendidos afirmaram que a selecção francesa era a favorita neste primeiro jogo. Ficou a zero. O Uruguai conseguiu reagir à alegada superioridade dos gauleses. As vuvuzelas!!! O som das vuvuzelas foi o que mais se ouviu em qualquer um dos jogos! Tendo em conta a tradição sul-africana, outra coisa não seria de esperar. Mas, confesso que prefiro os cânticos dos adeptos no apoio às suas equipas, que nestes jogos entre selecções, normalmente correspondem aos hinos de cada País. O ruído ensurdecedor tornou-se desagradável na transmissão televisiva. Pior terão ficado os tímpanos dos espectadores no estádio, para além do prejuízo para a concentração dos jogadores, pelo menos da selecção Mexicana, não habituada a este tipo de “apoio”. Parece que os adeptos da França e do Uruguai adoptaram também esta forma de apoiar a sua selecção! PS. 1. Adeptos da selecção da África do Sul, em Portugal Uma nota sobre os sul-africanos e luso-africanos residentes em Portugal que reconhecem a importância deste evento na África do Sul, muito para além do futebol. Trata-se da abertura ao mundo de uma nação que caracterizam como “fantástica” e “maravilhosa” mas que vive, tal como outras os graves problemas da violência e da segurança. PS.2. Para além do jogo dentro de campo 1. - A anunciada deslocação ao estádio do Prémio Nobel da Paz, Nelson Mandela, actualmente com 91 anos de idade, confirma a importância deste evento para a comunidade sul-africana mas revela também o simbolismo deste Estádio, na História da África do Sul. Em 1990, Mandela fez o seu primeiro discurso após sua libertação. 2 – O trágico acidente que ceifou a vida da bisneta de Nelson Mandela, após o concerto de abertura na 5.ªfeira, manchou a alegria que certamente Mandela sentia ao ver a sua nação receber uma competição desta dimensão. Este infeliz acontecimento, provocado por um acidente de viação, em que o condutor envolvido estava sob efeito de álcool, obriga-nos a repensar a nossa conduta como condutores! O Mundial de futebol gera euforias mas há que lembrar: se beber, não conduza! 3 – Uma congratulação à organização do grandioso espectáculo de abertura do Mundial que todos tivemos oportunidade de acompanhar, ontem, em Joanesburgo. 4- Uma felicitação à Câmara Municipal do Funchal, por ter mais uma vez, a iniciativa de disponibilizar o ecrã gigante na Praça do Município.
Rafaela Fernandes