Arrancou o Mundial 2010. Impregnadas no infernal zumbido das vuvuzelas, eis as diabruras dos cintilantes Messi, Ronaldo, Iniesta, Milito, Gerrard e demais feiticeiros da bola. Em directo da África do Sul, à mistura com a provocação incómoda das cornetas, talvez umas remotas reminiscências da rebeldia, persistência e altruísmo de uma história que ainda desvanece o mundo, a de Nelson Mandela. Instantes de utopia entre os golos de Kaká e os raides de Fábio Coentrão, fraqueza romântica fulminada pelo desfecho de cada jogo que passa. As ofensas, as injustiças e os crimes do apartheid estão por julgar, mantêm os radicais africanos. Cá nas ilhas, as vuvuzelas estão entupidas desde que os cânticos à liberdade desmaiaram, abafados pelo ruído de britadeiras, retroescavadoras, insultos e calúnia sistemática. Por falar em Mundial africano, um breve olhar à diligência 'diplomática' de 1986 que trouxe ao Funchal os Bothas da segregação racial. Tinha de ser a Madeira! Mas o corrente 'mês do sono' é para ver futebol e dormir. Sofrer pelas cores lusas até ao derradeiro minuto e desligar a inteligência quando a dureza da vida se insinuar. Os madeirenses dormem demais e não foram mordidos pela tsé-tsé. É cansaço de tantos anos 'democráticos'. A vida está difícil para todos. Há fogo cruzado. A primeira pancada chega de Lisboa, onde os grandes partidos inventam uma dupla penalização no IRS. Depois, o IVA ataca os bens essenciais - pão, leite, água, luz. É preciso encolher o défice? O contribuinte resolve. Com retroactividade. Alardeia Passos Coelho uma proposta que nem deveria ser precisa: impedir que a acumulação de pensões e vencimentos ultrapasse um limite razoável. Será matreira bordoada no ganho a dobrar do chefe regional das Angústias? Não. Seria trabalho perdido. Vencimentos, subsídios, subvenções, abonos e ajudas de custos para esse caso são direitos adquiridos. Blindados pelo Estatuto da Madeira. Os chefões cá do lugarejo não dormem em serviço, adormecem é o povo há trinta e tal anos. No 'centro de dia das Angústias', decreta-se que baixar 5% ao ganho dos políticos é demagogia que não resolve o défice. Miguel Mendonça também esclarece que um corte nas mordomias parlamentares não debelaria a crise. O problema não é de ninguém. Paga o povo, que é rico. Denunciam os pequenos partidos o regabofe com as fortunas esbanjadas para manter uma Assembleia que tem por missão justificar a 'democracia' da ditadura. Propõem os populares cortes na ALM para poupar aos madeirenses cerca de dois milhões por ano. O PSD chumba. Reduzir a metade uns depravados e insultuosos 3,4 milhões de euros, que é quanto o laranjal abarbata por ano, só se fosse a Madre Teresa, terão pensado os barões chefiados por Jaime Ramos - com a devorista clientela de galopins à ilharga. E, apesar de explorado, o povo dorme. Pior: finge dormir. Que não ouve o ruído que vai na Saúde. Onde, não fossem as 'razões óbvias', uma implacável vaga de demissões já teria limpo o desacreditado sistema. Como submergiu o povo neste torpor incapacitante? Tudo começou com um soporífero ministrado cedo. Há exactamente 30 anos. Em 1980... É este mandato e vou embora... Depois, com as regionalizações facilitadas por Lisboa e untadas em dinheiro fresco, bom, agora é só mais um mandato para concluir a obra e então adeus. Mas eis que desponta, no firmamento azul da Pérola, o maná europeu, prenhe de POPs, QCAs, Sifits, Poseimas - e então, aqui-del-rei, como partir antes da festança das inaugurações com foguetes e espetada? "Ajudei, ajude-me", é preciso carisma para montar a Madeira nova. E a dívida que alastrava mais do que o alcatrão! O chefão confirmava Orwell: 'O poder não é um meio, é um fim'. Daí as lágrimas de 1996 - 'por favor dêem-me um último e irrevogável mandato'. Mas, ganho outro mandato, vem a patética digressão pelas comunidades a rogar nova dose de poder. Sempre, sempre a amolar até ao episódio da anedótica sucessão a que assistimos actualmente, a sorrir e a chorar. Não passava pela cabeça de ninguém, nos primórdios do processo, que hoje estaríamos a apanhar com um regime de caudilho a 4 anos de igualar os 36 de Salazar. O contribuinte vai continuar a dormir. Pois se nunca reagiu a atentados político-sociais de pasmar! Saneamento de directores em órgãos de comunicação estatizados. Suspensão de programas na TV e marginalização de jornalistas. Veto de nomes nos conselhos directivos das escolas por razões ideológicas. Obrigar jornais, rádios e RTP a publicar enxovalhantes 'notas oficiosas'. Expulsão de históricos do próprio PSD que acharam excessiva a prepotência do chefe. Ameaça de sonegar dinheiro oficial às câmaras cuja maioria o eleitorado resolvesse passar à oposição. Enfim: na sua bonomia, o povo nem sequer tem reagido a uma política toda ela baseada na afronta. No ultraje. No acinte. Na delação. Na mentira compulsiva. Na acusação improvável. No boato covarde. Na intriga rasteira. Na contradição descarada. Na arrogância. Na gabarolice gratuita. E a agressão aos valores segue. É a permanente ameaça a quem pensa. 'Condes ou viscondes' são para deportar. O despedimento de gestores por conveniência. A promiscuidade governo-partido, em que tanto o secretário das Finanças anuncia medidas governativas à saída da comissão política do PSD, como é remetido do 'centro de dia das Angústias' o comunicado com carga partidária. E a bagunça dos carros do GR, que às escâncaras passeiam dirigentes nacionais do PSD e levam altas patentes às cerimónias de casamento. São os ensaios para erradicar os partidos pequenos. O sacramental boicote aos pedidos de debate formulados pela oposição. O parvo argumento de que recorrer no exterior a injustiças feitas cá é ofender a Autonomia. Ou seja, ao cidadão queixoso do grande chefe só seria permitido recorrer à Assembleia... onde manda Jaime Ramos. A anestesia geral vai durar, apesar da 'reconstrução' discriminatória, apesar da pobreza progressiva, apesar do desemprego que alastra como a peste, apesar do emprego que abona licenciados com o salário mínimo. O povo dorme para não sentir. O panorama é negro. A máquina criou despesas na Administração superiores às receitas. Não há dinheiro sequer para os gastos correntes. O governo é caloteiro. Não tem vintém para aplicar. O papel dos governantes é ficar sentados nos gabinetes à espera que venha alguma 'solidariedade' lá de fora. As inaugurações são substituídas por 'visitas'. O tempo é gasto a inventar conflitos que justifiquem a necessidade de mais uma hilariante candidatura. Queimam-se as alternativas, dentro e fora do partido laranja. Porque, depois das ilusões 'presidenciais' do chefe da lavra do maquiavélico Marcelo e demais capangas da 'Nova Esperança', têm-se frustrado as tentativas de salto para o patamar nacional. Os continentais ainda estão no seu perfeito juízo. E lá vamos aturando o lancinante lamento, uma desconsolada jeremiada a interrogar os deuses sobre o porquê da terrível condenação ao 'exílio dourado' na ilha. Mas por que não um lugarzinho nos nacionais?! Felizmente, a Madeira conta com representantes condignos lá fora, no País e no foro internacional. Eles estão na África do Sul. Um 'melhor do mundo', Ronaldo, e o luso-venezuelano Danny, de pais portugueses e preparado para a glória cá no Funchal. Oxalá nos animem neste mundial com golos e lances vistosos. Oxalá os madeirenses por aqui despertem deste quietismo neófobo e decidam desentupir também as vuvuzelas. Um secular regime hediondo e poderoso foi derrubado pela persistência de Mandela. Cinco décadas de fascismo renderam-se a G-3 com cravos no tapa-chamas. A arrogância cavaquista, que parecia eterna, desmoronou-se ao fragor de um oportuno buzinão. Sim, o cavaquismo ressurgiu esta semana. O Presidente da República, devidamente secundado por governantes cá do campanário, sugeriu férias internas. Que cada um evite ir gastar o seu dinheiro lá fora, pediu o homem. O barão das Angústias foi o primeiro a dar o exemplo: mala feita e avião para Bruxelas. Lá ele sente-se em casa. Um café na Grand Place sabe à bica do 'Number Two'. O homem já faz parte da mobília do Sheraton belga. De uma forma ou de outra, ele respeita o desejo cavaquista: não gasta o seu dinheiro lá fora. Gasta o nosso.
Luís Calisto