Fátima Nascimento Nunca gostei do adjectivo profissional. Talvez por induzir, muitas vezes, as pessoas em erro. A palavra 'amador' ao invés, e que designa 'aquele que ama' é para mim a mais correcta. Só consegue êxito naquilo que faz aquele que ama. Conheço pessoas que fazem jus a este pensamento.São poucos mas fazem o trabalho de muitos. E, o que é extraordinário, com poucos recursos. São modestos mas excelentes. É assim que se trabalha em Portugal. O bom trabalho mais não é do que o resultado da paixão que se vota àquilo que se realiza. Falo do teatro amador português. Tive oportunidade de acompanhar a actuação da Companhia de Teatro Porca Terra em dois excelentes espectáculos distintos. Das duas vezes, tive oportunidade de apreciar a excelência que colocam em tudo quanto realizam. E nada é feito ao acaso. Tudo é levado com a máxima seriedade: a cenografia, a encenação, os efeitos sonoros, a actuação… Num cenário, das duas vezes, nada complicado, mas imaginativo, cria-se o ambiente necessário ao desenrolar da peça. Em palco sente-se a tensão textual transpirada na emoção de cada frase e traduzida na voz e nos gestos dos actores que incorporam as personagens. A cada momento, o espectador é arrancado da cadeira da sala ficando preso ao desenrolar da trama, num clima contínuo de tensão que nos faz encarar uma realidade transportada para o palco que nós - espectadores - fazemos por ignorar, talvez por ser demasiado dolorosa, na vida. É confrontando-nos com os nossos receios mais íntimos e expondo-nos perante a escondida verdade dolorosa de situações marginais da nossa sociedade, despindo a cruel realidade de preconceitos, e mostrando-nos o seu lado humano mais íntimo que esta encerra, que Companhia Teatro, através de excelentes desempenhos, nos abre as portas para uma real reforma das mentalidades. E nada melhor do que a arte para nos fazer abrir os horizontes fortemente cerrados à maioria das pessoas da nossa sociedade. A realidade não passa disso mesmo: de uma maneira diferente de encarar as situações que nós teimamos em considerar marginais mas que são tão-somente humanas. Mas só evolui quem tem boa vontade, que verdadeiramente quer… e nada podemos fazer por aqueles que não querem ou não conseguem evoluir. Pelas fantásticas tentativas, está de parabéns todo o elenco desta Companhia de Teatro e passo a citar: Rute Lourenço (excelente actriz, duplamente presenteada com um prémio nacional de teatro), a e as excelentes Goretti Meca (actriz), Catarina Pinto (actriz) e Rafael Vergamota (actor) e, no excelente trabalho de bastidores, Rafael Vergamota (encenador), Tiago Reis (sonoplastia) Josué Domingos (carpintaria). Vale a pena ir ao teatro e constatar como é bom o trabalho que se realiza em Portugal e que tanto contribui para nos engrandecer enquanto nação!.