Maria Amélia Freitas, Professora Aos peregrinos que, em 13 de Outubro de 1917, presenciaram o anunciado 'milagre do sol', perguntaram se não teria sido uma alucinação colectiva.' -Se alguma coisa havia de colectivo, era a chuva que nos encharcava até aos ossos!'Coisa parecida e surpreendente parece ter acontecido em Lisboa, Fátima e Porto à passagem de Bento XVI: aguaceiros, chuva miudinha ou mais forte, frio, nuvens ameaçadoras, mas, à hora da chegada do Santo Padre, um arco-íris de ponta a ponta, um céu azul esplendoroso e um rio vestido dos seus melhores brilhos para receber o Vigário de Cristo.Talvez seja este um bom flash do contraste entre o ânimo sombrio de um país e a alegria esfusiante experimentada pelas multidões que acompanharam o Papa nos dias 11 a 14 de Maio.'- Passe lá! Shhh! Não faça barulho! Queremos ouvir o Santo Padre!' - Os silêncios recolhidos das assembleias multitudinárias, impressionantes nas homilias e nas missas celebradas em latim. Não era normal!'- Viva o Papa! Viva o Papa!' - Semelhante reacção de entusiasmo e devoção diante de quem, semanas atrás, era alvo de suspeição e antipatia, culpado de encobrimento de crimes horrendos, não é natural. A familiaridade do Presidente da República, Manoel de Oliveira, a comunicação social, as avenidas preenchidas, os longos aplausos…'-Quem é o Papa? - O Papa é aquele que faz as vezes de Jesus na terra!' - respondeu a criança e Portugal gritou-o nas praças e ao mundo.O sorriso de Bento XVI! Um sorriso sereno e surpreendido de Magnificat, de quem só sabe dizer 'Sim! Eis-me aqui!' Pediram-lhe para falar de Esperança. Apontou para cima, para Deus, para a santidade. A união com Deus faz-nos portadores de beleza e esperança no meio do mundo. Os jovens reagiram: 'Eu acredito! O dia de amanhã está à nossa espera!'A música. Outra forma de oração. Nos Jerónimos, o coro da Gulbenkian, os coros gregorianos aliados aos tradicionais. Vozes de criança e de adultos que pareciam renovados.Sobremesa preferida: a torta de noz. Mais um ponto de encontro, de diálogo e de cultura com o Papa 'que gosta de gatos, de ler e escrever e de tocar Bach e Mozart' nas palavras de outro miúdo a quem perguntaram o que sabia de Bento XVI.Várias pessoas que estiveram na Avenida dos Aliados disseram que não conseguiram ouvir quase nada da homilia do Santo Padre. De facto, o som ficou mais baixo e notava-se um pouco o cansaço de 83 anos e já a saudade da despedida. Mas, de qualquer modo, os discursos de Bento XVI, por mais acessíveis que sejam, não dispensam nunca uma leitura sossegada e repetida. Muito é dito nas linhas e entrelinhas… Portugal, que soube mostrar ao mundo como se ama um Papa, precisa agora de ler devagar estes sinais e seguir-lhes o rumo.