Penso que vi partes significativas das comemorações do centenário da República Portuguesa e fiquei deveras decepcionado. Não gostei do que vi. Vou tentar-me justificar, nem que seja para não deixar ninguém confundido com a minha decepção; e movido por tal propósito, nada como tentar expressar o que afinal julgo ter visto. Fundamentalmente, em dia de comemorações republicanas, vi altos representantes e mandantes a procurarem-se condicionar mutuamente, enredados num sistema de alertas e recados cruzados, profusamente povoados de lembretes às respectivas responsabilidades políticas e à necessidade de compromissos políticos. Fiquei com a sensação que perante o questionamento social de que estão a ser alvo, fruto da actuação e das medidas que têm empreendido, cujos resultados em nada se afastam de ajustamentos absolutamente irrelevantes e por isso mesmo medíocres, os principais agentes políticos do país preferem agora apostar tudo nas advertências intragrupais, que a meu ver revelam sobretudo preocupações consideráveis com a sua própria continuidade como agentes políticos activos. Perante a situação socioeconómica em que se encontra mergulhado o país, a minha retina vê políticos sem respostas capazes, que estando no activo, atrevem-se a reivindicar tréguas políticas dado o contexto. Falam de entendimento e compromisso… Estranho! Se são políticos e o país paga-lhes para fazerem política, que sentido tem os apelos à trégua política que incitam? Eu até percebo a manobra, mas não aceito a lógica. Se perante divergências profundas face a um contexto grave e concreto, em vez de política séria e dura, a alternativa que se devolve à sociedade é uma política faz de conta, então, talvez não haja mesmo nada a fazer; e este sistema político se tenha aproximado do esgotamento. Como cidadão e confrontado com estes discursos cosméticos, que oiço e vejo, mais apostados em fazer uso da retórica à motivação da população do que se defrontarem e alcançarem soluções razoáveis para o país, já decidi: dispenso-os! Não creio que a motivação da sociedade dependa de tal estímulo político. Infelizmente, a política interna não tem gabarito suficiente para almejar deter tal efeito na sociedade. O que não dispenso como cidadão, com a autoridade cívica de quem (felizmente) paga impostos todos os anos, que trabalha em média mais do que as horas que as estatísticas laborais balizam ou que os indicadores de produtividade indiciam, são soluções políticas sérias, competentes, imediatas e objectivas. Exijo muito mais trabalho de qualidade dos pseudo-motivadores, ou seja, à classe que governa o país. Gostaria que não perdessem tanto tempo com rituais de preenchimento temporal nem retóricas de sobrevivência. Em vez de se desdobrarem em avisos cautelares e à preservação grupal, como contribuinte, preferia que fizessem de forma irrepreensível o trabalho pelo qual são pagos, que preparassem bem o país, que antecipassem os contextos difíceis, que tomassem decisões políticas sensatas e tecnicamente sustentadas, em detrimento de posicionamentos puramente partidários ou de conveniências eleitorais de circunstância. Em menos de um ano, exigir repetidamente esforços suplementares ao país -confesso- não me motiva nada e, pior ainda, faz-me questionar seriamente a competência e a responsabilidade de quem decreta estes esforços sucessivos, bem como de quem, face a tais solicitações, limita-se a apregoar a coesão e o compromisso, quando o mínimo exigível seria a resolução cabal do problema.
Ricardo Fabrício