Artigo 18º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos». Bem pode o primeiro responsável político desta terra rezar para que o ano acabe depressa esperando que o próximo afaste o mau-olhado ou traga algum milagre, mas o exercício da política não decorre nem de um nem de outro. O que se passa é que a Madeira começa a pagar muito caro o desgoverno e a irresponsabilidade, a falta de estratégia e de soluções que ao longo dos anos se vêm a acumular. É isso que 2010 está a demonstrar. Uma dívida global de 6 mil milhões de euros para um Orçamento anual de 1.5; isto é, a dívida é 4 vezes maior que o orçamento; As sociedades de desenvolvimento revelaram, entre 2007 e 2009, prejuízos de 85 milhões €; mas não se vê destino nem rentabilização dos parques industriais, fóruns, restaurantes, marinas e promenades já construídos e pagos com dinheiros públicos; As sociedades desportivas recebem por ano 4.5 milhões dos nossos impostos; acresce que o estádio do marítimo consome mais de 40 milhões €; As empresas municipais não mostram qualquer vantagem; distorcem a contabilidade municipal, sorvem dinheiros públicos e não se traduzem em mais valias para as pessoas; A Via Litoral e a Via Expresso recebem do erário público, por conjunto e por ano, qualquer coisa como 120 milhões €; apesar de ambas apresentarem lucros (respectivamente da ordem dos 7 e 14 milhões €), nunca foi questionada a renegociação do contrato de concessão; A Via Madeira já consumiu, que se saiba, 300 milhões € pagos em factoring (um palavrão para dizer que como o governo não tem dinheiro as facturas são apresentadas aos bancos, que as pagam); resultado - os bancos já adiantaram tudo o que tinham para adiantar e, por isso, não há dinheiro para a imensidão de pequenos credores que desesperam; A saúde pública não oferece quaisquer garantias - não pela incompetência dos técnicos, mas pela total insegurança que percorre o sistema regional de saúde; Os turistas que nos visitam têm particular apetência pela natureza e pela paisagem; pois é preciso saber quem são os responsáveis pela sucessão de crimes ambientais que sacrificam a natureza e a paisagem à voracidade do lucro; é preciso saber quem prejudica, sem qualquer pudor, a economia da Madeira; Os incêndios do verão mostraram uma descoordenação muito acentuada, com cada responsável a dizer sua coisa; já o comportamento do chefe do governo foi como uma chapada na cara de todos quantos sentiram o fogo perto: de férias estava, de férias continuou. Nada de novo para quem, em Fevereiro, só apareceu depois do primeiro-ministro e do presidente da República terem falado. É proibido falar das 60 000 pessoas em diferentes graus de pobreza, como proibido é assumir os 15 000 desempregados registados. Em seu lugar, patrocine-se uma boa dose de inaugurações com inflamados discursos. Já chega da conversa dos adversários externos, de que tudo o que é bom é o poder regional que dá, e tudo o que é mau é culpa de Lisboa. O poder central não é exemplar em muita coisa, mas a estratégia regional é definida cá - é aqui que se prefere gastar 300 milhões € numa cota 500, de utilidade mais que mínima, que usar esse dinheiro num plano de ordenamento e salvaguarda da floresta ou numa estratégia para criação de emprego. Os tempos são de nos preocuparmos e enfrentarmos a sério os adversários internos. Que à falta de argumentos e coragem para nos explicarem contas, objectivos, estratégias, prioridades, se remetem ao mais completo silêncio, num comportamento cobarde de quem não quer assumir erros (sabendo que errou) e numa atitude matreira de deixar passar o tempo a ver se esquece até chegarmos às próximas eleições. Esquecer, é exactamente o que não é possível fazer. Se não temos memória, como pessoas e como sociedades, não existimos; aceitamos ser simplesmente levados, sem pensar nem querer. E 2010 tem vindo a mostrar que, cada vez menos, queremos ser assim.

Violante Saramago Matos