
1. A Autonomia não acabou com soldados no porto, tanques diante da Assembleia ou um ministro de Lisboa trazendo um decreto no bolso. Acabou numa terça-feira, às dez e vinte e três, quando um funcionário carregou numa tecla e o sistema informou que a Madeira deixara de reunir os requisitos para continuar a existir como Região Autónoma, como se um povo precisasse de uma certidão das finanças para ser aquilo que era. Ninguém protestou. Uns tentavam marcar uma consulta, outros procuravam casa, outros faziam contas ao preço de sair da ilha. A extinção foi publicada no Diário da República. Ninguém leu. À mesma hora, o Governo inaugurava um miradouro capaz de medir a emoção dos turistas diante do pôr do sol, não o desespero de quem vivia cá.
Durante décadas ensinaram-nos que Autonomia era receber dinheiro de Lisboa e de Bruxelas, indignarmo-nos porque chegava tarde e festejar quando aparecia. Chamavam a isto luta autonómica, com a solenidade de quem atravessara a serra da Encumeada a pé e não com a comodidade de quem viajara em executiva. Ninguém perguntava como podia uma Autonomia passar cinquenta anos de mão estendida e julgar-se dona do próprio braço.