Uma história que Nuno Barros
conta aos alunos há mais de duas décadas chega agora ao papel. ‘A Gulosa do
Ilhéu de Câmara de Lobos’, quinto livro do autor, é descrito pelo próprio como “uma
viagem pela memória e pelas tradições do concelho”, tendo como cenário um Ilhéu
muito diferente daquele que hoje é conhecido sobretudo pela sua vertente
turística.
A origem da obra remonta aos
primeiros anos de serviço de Nuno Barros na Escola da Fonte da Rocha, há mais
de 20 anos. Ao preparar uma aula, o professor encontrou um pequeno conto
popular sobre um pescador que regressava a casa depois de um dia de trabalho e
descobria que a mulher tinha comido tudo. A partir dessa narrativa, com apenas
“dois ou três parágrafos”, criou uma versão adaptada à realidade de Câmara de
Lobos, introduzindo lugares, personagens e referências locais.
A história encontrou particular
receptividade entre os alunos, alguns dos quais ainda tinham vivido no Ilhéu
antes da mudança para a nova zona habitacional, na Nova Cidade. “Eles
acreditaram piamente que a história podia ser verídica”, recorda Nuno Barros,
explicando que muitas crianças reconheciam naquele universo referências às
próprias famílias, nomeadamente pais pescadores ou avós ligados às actividades
tradicionais.
Editada pela Câmara Municipal de
Câmara de Lobos e ilustrada por Priscila Reis, a obra procura agora contribuir
para preservar essa memória colectiva. O livro inclui mesmo personagens reais
do concelho, como o barbeiro Juvenal, a quem é dedicado um capítulo.
Para Nuno Barros, ‘A Gulosa do
Ilhéu’ não se destina apenas aos mais novos. “É importante para os mais velhos,
porque vão recordar, obviamente, algumas das coisas que viveram. E é importante
para os mais novos saberem como eram as vivências de outros tempos naquele
local”, salienta.

O autor lembra que “a vida no
Ilhéu não era fácil” e destaca o papel das sucessivas gerações na transformação
do concelho, desde “o pescador que pescava o dia todo e depois, à noite, tinha
que subir o Ilhéu” às bordadeiras que também enfrentavam uma vida difícil.
Foram essas pessoas, sustenta, que ajudaram a fazer de Câmara de Lobos aquilo
que é actualmente.
Depois de mais de 20 anos a
testar oralmente a história junto das crianças, Nuno Barros espera que a
publicação ajude também a preencher uma lacuna na literatura infantil e juvenil
ligada à tradição oral do concelho. O objectivo é que os residentes possam
reconhecer e valorizar o seu passado e que quem vem de fora fique a conhecer
melhor “como é que era Câmara de Lobos antigamente”.
A vereadora com o pelouro da Educação na Câmara Municipal de Câmara de Lobos, Sónia Brazão, destacou precisamente a capacidade da obra para preservar e transmitir às novas gerações a memória do concelho. “Quando falamos de património, muitas vezes pensamos em edifícios, monumentos, ruas e paisagens. Mas o património também são as histórias das pessoas”, salientou, considerando que 'A Gulosa do Ilhéu de Câmara de Lobos' recupera uma realidade de há cerca de 40 anos e constitui também “uma homenagem à nossa comunidade piscatória”. “A pesca não é apenas actividade económica. É parte da nossa cultura e da nossa identidade”, reforçou.
Sónia Brazão sublinhou ainda o potencial educativo do livro, incentivando os alunos a questionarem pais, avós e familiares mais velhos sobre a Câmara de Lobos de outros tempos. “Muitas vezes os melhores livros estão dentro da memória das pessoas”, afirmou. Para a vereadora, “a educação não acontece apenas dentro da sala de aula” e uma criança também aprende quando conhece a história da sua terra, pelo que esta obra poderá funcionar como “uma ponte entre gerações”. “As histórias simples podem guardar grandes memórias”, concluiu, defendendo que uma comunidade que conhece a sua história está melhor preparada para construir o futuro.
A apresentação da nova obra
decorreu na manhã desta terça-feira, no Museu de Imprensa da Madeira, e contou
a presença do Executivo da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, nomeadamente o
seu presidente, Celso Bettencourt, bem como de Nuno Maciel, secretário regional
de Agricultura e Pescas.
A sessão de apresentação foi
conduzida pela contadora de histórias Leda Pestana, tendo contado com um
momento de dramatização, relacionado com o enredo do novo livro, protagonizado
pelo grupo ‘Sempre Jovem’.

