A criação de “gémeos digitais” no território e na actividade
agrícola pode permitir à Madeira antecipar fenómenos climáticos extremos,
prevenir pragas e doenças, gerir de forma mais eficiente a rega e os recursos e
testar diferentes cenários antes de tomar decisões de longo prazo. A proposta
foi apresentada esta segunda-feira por Miguel Castro Neto, director da 'NOVA
Information Management School' (NOVA IMS) da Universidade Nova de Lisboa e
antigo secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da
Natureza no governo de Pedro Passos Coelho, à margem da conferência
‘Agricultura madeirense: entre poios e alterações climáticas, como redesenhar o
território para a Madeira continuar a dar frutos?’, promovida pela Região
Madeira da Ordem dos Engenheiros.
O especialista defende que a profunda transformação digital
em curso, associada à capacidade crescente de recolher e processar grandes
volumes de informação e ao desenvolvimento da inteligência artificial, abre uma
oportunidade para mudar a forma como a agricultura é planeada, executada,
monitorizada e avaliada.
“Nunca como hoje nós conseguimos capturar tantos dados das
mais diversas formas, tipos e formatos e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas
capacidades de analisar estes dados”, salientou, questionado pelo DIÁRIO,
considerando a inteligência artificial (IA) o elemento mais disruptivo deste
processo.
A aplicação desta tecnologia assume particular relevância
numa actividade como a agricultura, que exige decisões com impacto a médio e
longo prazo e não pode ser alterada de um dia para o outro. É neste contexto
que Castro Neto aponta para os chamados “gémeos digitais”: representações
virtuais da realidade capazes de integrar diferentes dimensões de uma actividade
ou território e permitir a sua monitorização e simulação.
No caso da agricultura madeirense, uma ferramenta deste
género poderia incorporar informação sobre as características orográficas do
território, a actividade agrícola, a água, o clima e outros factores
relevantes, permitindo acompanhar em tempo real o que está a acontecer e
melhorar a gestão dos recursos.
Mas a principal vantagem, segundo o membro Conselheiro da
Ordem dos Engenheiros e Presidente do Conselho de Administração da Lisboa
e-Nova, Agência de Energia de Lisboa, estará na capacidade de antecipação. Com
recurso à inteligência artificial, os modelos poderão ajudar a prever o que
poderá acontecer no dia seguinte ou na semana seguinte e apoiar decisões como a
prevenção de pragas e doenças ou a gestão da rega.
“Se eu consigo descrever o passado e antecipar o futuro, eu
posso prescrever decisões de longo prazo”, explicou, defendendo que a
possibilidade de testar diferentes cenários permitirá escolher soluções antes
de estas serem aplicadas no território.
Simular cheias e fenómenos extremos
Os “gémeos digitais” poderão igualmente incorporar os
efeitos das alterações climáticas e simular fenómenos extremos. Um modelo
suficientemente sofisticado, explicou Miguel Castro Neto, poderá testar
cenários de inundação ou outras catástrofes e antecipar as suas consequências.
Na Madeira, essa capacidade poderá assumir particular
importância perante episódios, por exemplo, de precipitação intensa. O
investigador exemplificou a possibilidade de um sistema antecipar que
determinada precipitação poderá provocar danos em áreas agrícolas e, a partir
dessa informação, permitir alertar atempadamente as autoridades responsáveis
pela proteção de pessoas e bens.
Se eu tiver a capacidade de avisar antecipadamente bombeiros, protecção civil, para intervirem, para salvarem pessoas e bens em tempo útil, isso tem um valor inquestionável"
“Se eu tiver a capacidade de avisar antecipadamente
bombeiros, proteção civil, para intervirem, para salvarem pessoas e bens em
tempo útil, isso tem um valor inquestionável”.
Castro Neto apontou ainda para episódios recentes de
fenómenos extremos para ilustrar a importância do factor tempo. Referindo-se às
inundações registadas em Valência no ano passado, considerou que a incapacidade
de avisar as populações atempadamente demonstrou o valor que pode ter a
capacidade de antecipar a evolução de um fenómeno.
Para o especialista, que é também membro da Plataforma para
o Crescimento Sustentável e da Comissão Executiva do 'European Digital
Innovation Hub AI4PA' – Inteligência Artificial para a Administração Pública, o
desafio passa por transformar a enorme quantidade de dados actualmente
disponível em conhecimento capaz de apoiar decisões concretas. Na agricultura,
isso significa não apenas produzir de forma mais eficiente, mas também aumentar
a capacidade de adaptação às alterações climáticas, reduzir emissões e preparar
o território para riscos que podem ser antecipados através de modelos digitais.
A aplicação destas tecnologias à agricultura madeirense
permitiria, assim, passar de uma lógica essencialmente reactiva para uma
abordagem mais preditiva, em que diferentes cenários podem ser simulados antes
de se tomar uma decisão — uma mudança que Castro Neto considera particularmente
relevante num território com as especificidades orográficas e climáticas da
Madeira.

