A presidente da Região Madeira da Ordem dos Engenheiros,
Beatriz Jardim, defendeu esta segunda-feira a necessidade de a Madeira ponderar
a criação de uma reserva agrícola, como instrumento de protecção do território
produtivo e de reforço da capacidade de resposta da Região perante as
alterações climáticas, crises logísticas e eventuais constrangimentos no
abastecimento. A proposta foi deixada na abertura da conferência ‘Agricultura
madeirense: entre poios e alterações climáticas, como redesenhar o território
para a Madeira continuar a dar frutos?’, que decorre esta manhã no auditório do
Museu Casa da Luz.

Beatriz Jardim sustentou que a agricultura madeirense deve
deixar de ser encarada como uma actividade do passado para assumir um papel
estratégico no futuro da Região, numa realidade marcada pela sua condição
insular e ultraperiférica. “O sector primário não é o sector do passado. De
facto, deve ser um sector do futuro”, afirmou, apontando a agricultura como uma
componente da autonomia possível, da coesão territorial e da capacidade de
preparação e resposta da Madeira.

Na intervenção, a dirigente destacou o papel histórico da
agricultura na construção e transformação do território madeirense, sublinhando
o conhecimento acumulado em torno dos poios, caminhos agrícolas, gestão da água
e adaptação das culturas às características do território. Esse património,
afirmou, representa simultaneamente valor económico, social, ambiental,
cultural e identitário.

Mas o território produtivo enfrenta hoje “desafios
acrescidos”, sobretudo devido às alterações climáticas. A alteração dos regimes
de precipitação e da disponibilidade de água, a instabilidade dos solos, a
maior incidência de pragas, a frequência de fenómenos extremos e a alteração
dos ciclos produtivos são alguns dos riscos identificados por Beatriz Jardim.

A estes factores juntam-se, segundo a presidente da Região
Madeira da Ordem dos Engenheiros, as vulnerabilidades próprias de uma região
insular. A dependência das cadeias logísticas externas, eventuais limitações à
operação portuária, o aumento dos custos de transporte, as dificuldades no
acesso a factores de produção e a instabilidade dos mercados internacionais
tornam o abastecimento particularmente sensível a crises externas.

É neste contexto que Beatriz Jardim enquadrou a necessidade
de proteger o território agrícola. “Redesenhar o território para a Madeira
continuar a dar frutos exige políticas públicas consistentes, a valorização da
agricultura, o ordenamento responsável, a criação de uma reserva agrícola”,
afirmou, acrescentando a necessidade de uma gestão integrada da água, apoio aos
agricultores e investimento em conhecimento, inovação e tecnologia.

A responsável defendeu, por outro lado, que a agricultura do
futuro terá de ser “mais eficiente, mais tecnicamente apoiada e mais valorizada
socialmente”, sem perder a ligação ao território, às comunidades, à diversidade
das culturas e ao conhecimento local.

A engenharia, sustentou, poderá desempenhar um papel
relevante neste processo, nomeadamente na gestão do solo e da água, na
estabilidade de taludes e encostas, na protecção contra a erosão, na eficiência
energética, na logística, na digitalização e na monitorização climática.

“Não podemos olhar para a agricultura apenas quando há
escassez”

Beatriz Jardim salientou ainda a importância de não olhar
para a agricultura apenas em momentos de escassez ou crise. “Não podemos olhar
para a agricultura apenas quando há escassez, crise ou falha de abastecimento”,
afirmou, defendendo uma valorização permanente do setor enquanto actividade
económica, instrumento de gestão activa do território e resposta às alterações
climáticas.

A conferência pretende precisamente cruzar conhecimento
técnico e científico com o debate sobre o futuro do território agrícola
madeirense, abordando a governação territorial na era da inteligência
artificial e os desafios colocados pelas alterações climáticas.

Na abertura, a presidente da Região Madeira da Ordem dos
Engenheiros associou também a agricultura às questões de segurança e defesa,
considerando que a iniciativa constitui um contributo regional para o tema
escolhido pela Ordem dos Engenheiros para 2026. No final, deixou a agricultura
como uma “potência essencial da resiliência da Região”, defendendo uma
conjugação de “consciência, planeamento, conhecimento local e engenharia” para
garantir que a Madeira continue a dar frutos.