Há mudanças que visam simplificar a vida. E, nesse capítulo, Portugal tem sido referência mundial em vários domínios, do Multibanco à Via Verde e da Loja do Cidadão à Chave Móvel Digital. Dá gosto perceber que este País conseguiu abolir, com mestria, passos, balcões, papéis e deslocações, contribuindo para uma melhor qualidade de vida colectiva.
Só que, talvez embalado pela inovação e pelos casos notáveis em que a tecnologia retirou burocracia, tem vindo a meter-se em sarilhos sempre que a obsessão pela digitalização produz o efeito contrário, deixando de fazer presencialmente aquilo que passa a obrigar o cidadão a tratar sozinho, através de uma plataforma que nem sempre funciona ou foi suficientemente testada.
Ao lançar sistemas novos em áreas críticas sem garantir que estão maduros, o Estado decide experimentar com pessoas. E transformá-las em utilizadores-teste, ou, pior, em cobaias, é particularmente abusivo quando estão em causa a saúde, a educação, a justiça ou prestações sociais, onde o custo de um erro pode ser muito superior ao de uma falha numa aplicação banal.