Os ursos-pardos são capazes de 'mentir' para parecerem maiores do
que os seus rivais, segundo um estudo que documenta, pela primeira vez, a
capacidade de uma pequena percentagem destes animais para manipular sinais
visuais e olfativos para evitar confrontos.

Os detalhes da investigação foram publicados em Julho no Journal of Mammalogy, num artigo da autoria de uma equipa científica
internacional com a participação do Museu Nacional de Ciências Naturais
(MNCN-CSIC) de Espanha, noticiou a agência Efe.

Os investigadores monitorizaram 164 ursos na Cordilheira
Cantábrica utilizando 117.000 horas de gravações de armadilhas fotográficas.

Os resultados mostram que sete dos ursos observados foram capazes
de manipular os sinais que utilizam para comunicar, de forma a parecerem
maiores do que o seu tamanho real permitia.

"Embora seja um comportamento excecional, é a primeira vez
que é documentado em ursos, demonstrando que a sua comunicação é mais complexa
do que se pensava anteriormente", salinetou o investigador do MNCN,
Vincenzo Penteriani, citado num comunicado.

A comunicação animal baseia-se em sinais que transmitem
informações fiáveis sobre a identidade, o sexo, a idade ou a capacidade
competitiva de um indivíduo.

No caso do urso-pardo, a altura a que depositam marcas visuais e
olfativas parece ser um indicador do tamanho corporal e, por conseguinte, da
sua força ou posição dominante.

Este é um tipo de informação que, até então, era considerado
impossível de falsificar.

Para investigar este comportamento, a equipa monitorizou 164 ursos
diferentes, registando-os em 14 pontos de marcação na Cordilheira Cantábrica
entre 2021 e 2024.

Foram instaladas plataformas junto a árvores e postes normalmente
utilizados para marcação, de forma a verificar se os ursos estavam a utilizar
estas estruturas para deixar marcas a uma altura superior à que alcançariam
naturalmente.

Após a análise das gravações, os resultados mostraram que sete
machos adultos e juvenis, 4,3% do total, fizeram marcas exageradas, utilizando
plataformas ou escalando para deixar marcas químicas (odor que deixam ao
esfregar-se) e visuais mais altas do que a sua altura real permitiria.

Os ursos-pardos deixam geralmente as suas marcas na altura máxima
que conseguem alcançar em pé sobre as patas traseiras, a cerca de dois metros.

No entanto, num dos pontos, observou-se uma marca visual a três
metros, uma altura inatingível para qualquer urso em pé no chão.

A descoberta de um ramo partido diretamente abaixo da marca sugere
que o animal escalou para a fazer.

"Para um macho não dominante ou um indivíduo jovem, esta
estratégia pode oferecer vantagens, uma vez que, ao parecerem maiores, podem
dissuadir rivais maiores, reduzindo a probabilidade de um confronto direto,
evitando os custos associados e até aumentando as suas oportunidades
reprodutivas", explicou o cientista.

É uma estratégia que faz lembrar o engano
observado noutros mamíferos.