
Precisamos, com urgência, de homens e mulheres úteis, não de figuras importantes, especialistas em aparecer ou administradores da própria reputação. Úteis no sentido exigente da palavra: pessoas com conhecimento, experiência, critério, memória, coragem e independência; pessoas que conheçam o mundo para além dos gabinetes, dos comunicados e das promessas ocas. Gente que faça do conhecimento não um adereço, mas a base da decisão, o centro da governação e o ponto de partida para escolher, priorizar, corrigir, recusar e avançar.
Governar sem conhecimento é administrar por impulso, por conveniência, por medo, por achismo, por mesmice, por clientela ou por calendário eleitoral. É decidir hoje para apagar o incêndio de ontem e criar o problema de amanhã. É confundir movimento com acção, anúncio com obra, despesa com investimento, popularidade com razão, maioria com inteligência. E, no entanto, quanto da nossa vida pública não vive precisamente disto? Decide-se porque “é preciso dar uma resposta”, porque “há verbas”, porque “fica bem”, porque “sempre se fez assim”, porque “há pressão”, porque “não convém mexer”, porque “é politicamente sensível”, essa expressão maravilhosa que costuma significar apenas isto: a verdade existe, mas dá trabalho e pode incomodar alguém. E depois há o espanto, sempre o espanto: as políticas não resultam, os serviços pioram, os custos disparam, as pessoas afastam-se, a confiança desfaz-se aos poucos. Como haveria de ser diferente se, no fim, ninguém responde por nada?