O Instituto de Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR) da
Universidade dos Açores coordena um projeto para mapear emissões de dióxido de
carbono (CO2) em ambientes vulcânicos a partir do Espaço, desenvolvendo novas
ferramentas para reforçar a monitorização.
O projeto "BREATHE - Respiração da Terra em aquecimento:
cartografar o fluxo de CO2 desde a Terra até ao Espaço" é financiado em
243.592,70 euros pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), tendo como entidade
beneficiária a Fundação Gaspar Frutuoso, e, segundo a coordenação, "pode
ser considerado na vanguarda da ciência, contribuindo para redefinir estratégias de
monitorização vulcânica, modelar o ciclo do carbono e responder às alterações
climáticas".
Em declarações à agência Lusa, a investigadora responsável pelo
projeto, Maria de Fátima Viveiros, diretora do IVAR, adiantou que a iniciativa
permite ultrapassar as limitações dos métodos tradicionais, que exigem
deslocações ao local e equipamento específico.
O BREATHE visa desenvolver "novas ferramentas de deteção
remota capazes de identificar anomalias de CO2 em solos, lagoas, zonas
costeiras e áreas submarinas, e discriminar a sua origem (biogénica ou
vulcânica), complementando as medições no terreno", por vezes dificultadas
pela "densa vegetação ou porque se trata de zonas de difícil acesso".
"Este projeto oferece uma estrutura abrangente e inovadora e
vai permitir monitorizar mais vulcões e ter mais indicações que nos possam
auxiliar a dar uma resposta mais eficaz num possível momento de
reativação", destacou Fátima Viveiros.
O projeto vai decorrer durante três anos, envolvendo 17
investigadores de Portugal, França, Espanha, Suécia e Itália.
A primeira reunião foi realizada em maio, nas instalações do IVAR,
na Universidade dos Açores, onde foram definidas as áreas de estudo na ilha de
São Miguel, centradas nos vulcões das Furnas e do Fogo.
Os resultados obtidos serão posteriormente aplicados na ilha
Terceira, na zona do vulcão de Santa Bárbara, e em La Palma, nas Canárias
(Espanha).
"Vamos desenvolver o projeto essencialmente em São Miguel e,
posteriormente, testá-lo nestes outros locais. Não se trata de substituir as
medições locais, mas complementar os trabalhos que já fazemos nos locais
identificados", acrescentou a investigadora.
No caso da ilha de São Miguel, os investigadores já conhecem áreas
com anomalias de CO2 ao nível dos solos, nos lagos e junto à linha de costa.
"Queremos desenvolver ferramentas que permitam identificar
emissões de CO2 a partir do Espaço, sobretudo em zonas de difícil acesso, onde
nem sempre é possível realizar medições diretas", explicou Fátima
Viveiros.
De acordo com a investigadora, existem atualmente nos Açores oito
estações permanentes que medem o dióxido de carbono, a cada hora, em diferentes
sistemas vulcânicos.
Por outro lado, os investigadores fazem medições do dióxido de
carbono emitido pelos solos, lagos e ribeiras através de deslocações ao local e
usando equipamento específico, daí um dos principais desafios do projeto ser
agora implementar ferramentas inovadoras de deteção remota.
Fátima Viveiros sublinhou que a criação de novas ferramentas de
monitorização "faz todo o sentido em zonas vulcânicas", referindo que
o dióxido de carbono é considerado um dos principais precursores da reativação
vulcânica - frequentemente, é o primeiro gás libertado quando novo magma
ascende no interior da Terra.
A par do IVAR, a equipa científica integra igualmente membros do
Okeanos (Instituto de Investigação em Ciências do Mar), do Centro de Biotecnologia dos
Açores (CBA) e do Centro de investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos
(CIBIO - Açores), reunindo geólogos, biólogos, físicos e botânicos.
Além da sua relevância para a vigilância vulcânica, Fátima
Viveiros assinalou que o projeto tem relevância em termos de alterações
climáticas.
Os resultados do BREATHE poderão vir a ser utilizados por centros
de monitorização como o Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos
Açores (CIVISA), reforçando as ferramentas disponíveis para a vigilância
sismovulcânica em tempo real, sublinhou a investigadora.
O projeto inclui ainda ações de formação em deteção remota que
serão lecionadas na Universidade dos Açores para "permitir formar as novas
gerações de investigadores".
A investigadora revelou também que serão atribuídas quatro bolsas
de investigação, no âmbito da iniciativa, contribuindo para reforçar a
capacitação científica dos Açores.
