Trabalhar no oceano é sempre imprevisível, é preciso ter cuidado
para não perder os equipamentos no mar e ter atenção às condições atmosféricas adversas,
foram os conselhos deixados ao Observatório Oceânico da Madeira por Alex
Rogers, director-adjunto de Programas de Ciência Estratégica e Parcerias do NOC
- National Oceanography Centre (Centro Nacional de Oceanografia), que construiu
os dois submarinos adquiridos pela Região através da ARDITI - Agência Regional
para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação.
Os equipamentos foram financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Esta manhã foi a celebração da entrega e a assinatura de um protocolo que vai
permitir continuar a parceria para além do negócio de fornecimento do ALR 6000
e do ALR 1500. Na sessão esteve em exposição apenas este último. Os dois
equipamentos vão integrar em 2028 uma expedição à Antártida juntamente com dois
elementos da equipa madeirense.
Dentro de uma década a Madeira deverá estar a viver outra realidade
em termos de desenvolvimento científico, com equipas internacionais a marcarem
presença para tirar partido das novas tecnologias disponíveis, acredita o
responsável do NOC. “A Madeira tem uma localização única no Atlântico Nordeste
e têm acesso a águas profundas incríveis, literalmente a um quilómetro ou dois
da costa. E o Observatório está numa excelente localização para começar a explorar
o mar-profundo aqui à volta”, acredita o investigador. “A tecnologia que o
Observatório está a trazer aqui para a Madeira são robôs oceânicos de ponta,
veículos autónomos de profundidade, veículos autónomos de superfície, drones,
eu acho que dentro de dez anos o que vamos ver será uma comunidade florescente
de investigação aqui no Funchal, explorando bem dentro do oceano (…) E eu acho
que vão ver muitas parcerias a acontecer com outros laboratórios na Europa e
noutros locais, pessoas a virem cá para fazer as suas investigações e colaborarem
com investigadores de cá”.
Como alerta, diz que é necessário ter muito cuidado para não
perder os equipamentos – um investimento de 6 milhões de euros nos dois submarinos.
“Por vezes as coisas correm mal, é preciso ter capacidade para encontrar o veículo
e trazê-lo de volta”. Além disso, o clima é sempre um desafio, diz, referindo que
trabalhou em locais como a Antártica, onde enfrentaram ondas de 15 metros ou
mais de altura.
Na apresentação, o director-adjunto alertou para a
necessidade de cuidar dos oceanos e do ambiente, da dependência do mundo
natural para a sobrevivência não apenas económica, mas enquanto espécie. “Os
oceanos proporcionam-nos comida, mas o que a maior parte das pessoas não se apercebe
é que regula a atmosfera, muitos dos nutrientes de que dependemos e produz
oxigénio. Cada segunda respiração que faz aqui enquanto me ouve vem de lagas
microscópicas que vivem na superfície dos oceanos”. E alertou para três crises
que o Mundo enfrenta: as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e o impacto
da poluição, sobretudo dos plásticos. Ainda assim, a economia marinha deverá
valer mais de três triliões de dólares em 2030. “Por isso, temos um interesse
económico nisto, além de uma obrigação moral”. O NOC, que representa, trabalha
para impedir o agravamento e reverter o mal feito.
Sobre a indústria financiar a investigação, por exemplo
empresas que visam a exploração mineira no mar profundo, isso não o choca. “O importante
é que instituições como o Observartório e o NOC mantenham a neutralidade”, defende,
mas “essencialmente que os dados que produzimos sejam da melhor qualidade do
ponto de vista científico, e isso não é influenciado para quem nós trabalhos”.
E diz que a função dos cientistas é garantir que os políticos e os governos têm
a informação necessária para tomarem decisões com base no conhecimento. “E isso
passa em parte pela investigação, seja ela financiada pelo governo, parcialmente
pela indústria ou por organizações não-governamentais”.
Rui Caldeira também estava satisfeito. “De repente, a
Madeira passou a estar no mapa das tecnologias do mar profundo”. E defendeu que
todos devem ficar orgulhosos do feito.
O navio e a plataforma serão entregues a 31 de Agosto. Com
os novos equipamentos a Madeira dá “um salto de gigante” que capacita a Região
para ir ao seu entorno marítimo.
O investigador, director do Observatório e presidente da
ARDITI fez votos de continuar a aprender e a cooperar com a equipa inglesa do
NOC, numa relação que espera seja duradoura.
Para já, o protocolo de cooperação prevê que a ARDITI dê
apoio ao nível de testes de equipamentos que têm em desenvolvimento e que o NOC
apoie no desenvolvimento dos veículos, expansão dos veículos e mesmo nas
operações. Já está prevista uma missão na Antártida em 2028, em 207 havia a
possibilidade, mas o presidente da ARDITI achou que seria demasiado cedo.
Entreanto tem a campanha nas Selvagens com a Fundação Oceano Azul, em Maio do próximo
ano, já com os novos equipamentos. Por agora e nos próximos nove meses a um ano
vão treinar equipamentos e operadores para executar as missões.
O processo administrativo, jurídico foi “muito árduo”, nas
palavras de Rui Caldeira, exigiu um esforço colaborativo. “Agora a
responsabilidade é a operação profissional, com o mínimo de riscos e começar a
capitalizar na recolha de informação”.

