Quando saí da Iniciativa Liberal, ou daquilo que então ainda se chamava assim com alguma esperança, as razões eram sobretudo locais, feitas dessa matéria pegajosa de ilha pequena, conversas ao ouvido, ambições de corredor, pequenos ressentimentos embrulhados em grandes palavras, e aquela antiga capacidade madeirense de transformar uma ideia num quintal, uma causa numa chave de porta e um partido numa sala estreita onde cada um mede o outro pelo tamanho da sombra que projecta na parede. Nada que surpreendesse muito.

Mas o tempo, que tem o péssimo hábito de continuar apesar da nossa paciência, foi acrescentando outras razões às primeiras. E essas já não eram locais. Eram nacionais. Vinham de Lisboa, dessa grande máquina de produzir solenidades vazias, discursos com gravata e convicções de quinze minutos, e mostravam que o problema não estava apenas na periferia, no acidente regional, na pequena intriga doméstica. Estava no centro. Estava na casa-mãe. Estava no sítio onde se devia guardar as ideias e onde, afinal, se ia arrumando a doutrina na arrecadação, ao lado dos cartazes antigos, das promessas inconvenientes e das fotografias de campanha que já ninguém queria ver.