O desafio do conhecimento do mar também foi outros dos temas em destaque na XI Grande Conferência do Jornal da Economia do Mar – Edição Madeira, que decorre no Hotel Pestana Casino Park.

Na primeira intervenção, do painel moderado por Manuel Biscoito, o responsável pela Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), defendeu a criação de uma estratégia nacional para o mar profundo, sublinhando que a soberania marítima de Portugal não se esgota no reconhecimento internacional da extensão da plataforma continental. "É fundamental fazer a ponte com algo verdadeiramente importante, que é o conhecimento do mar profundo", disse, destacando que cerca de 97% a 98% da área reclamada por Portugal corresponde precisamente a esta zona do oceano.

Nesse sentido, Carlos Ventura Soares defendeu a criação de um Observatório do Mar Profundo, como uma forma de concentrar conhecimento e competências. "O importante é que exista um foco claro e permanente no conhecimento do mar profundo", afirmou.

"Não basta produzir excelentes artigos científicos, desenvolver investigação de qualidade, é necessário ir para o mar, operar no mar e desenvolver competências práticas reconhecidas pelos nossos parceiros internacionais", sublinhou.

Foto Hélder Santos/ASPRESS
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Já João Marreiros, director-geral do Instituto Hidrográfico, destacou que o conhecimento do oceano deve ser entendido como "um ciclo virtuoso", que começa na observação, passa pelo tratamento e análise dos dados e culmina na disponibilização de informação útil para os decisores, empresas e investigadores. "Por isso, é necessário ter boas observações, equipamentos e plataformas devidamente calibrados e, acima de tudo, pessoas qualificadas para os operar e interpretar", afirmou, acrescentando que é necessário recorrer a "novas ferramentas, novos métodos de análise e inteligência artificial" para extrair informação relevante.

Não obstante, o director sublinhou que Portugal dispõe de uma comunidade científica qualificada, integrada em redes internacionais, mas continua a enfrentar fragilidades estruturais. "A principal fraqueza é, provavelmente, a nossa dificuldade em organizarmo-nos e em tirar pleno partido das capacidades que possuímos", afirmou.

Entre os principais desafios, apontou a precariedade laboral, a dificuldade em reter talento, a fragmentação dos dados, a necessidade de redes permanentes de monitorização e a dependência de financiamentos de curta duração. "Pode haver muita inteligência artificial, mas nada se faz sem inteligência humana", frisou.

Foto Hélder Santos/ASPRESS
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Por sua vez, João Tasso Borges de Sousa, professor de Engenharia Electrónica e investigador da Universidade do Porto, apontou como prioridade a criação de uma presença sustentada de Portugal no Atlântico. "Temos tecnologia, temos talento, temos conhecimento, mas não estamos a aproveitar tudo isso da melhor forma nem a construir uma visão suficientemente integrada", referiu, defendendo uma abordagem baseada em sistemas e uma maior aposta na engenharia de sistemas.

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Por fim, Carlos Lucas, da ARDITI, destacou o papel do Observatório Oceânico da Madeira na recolha, tratamento e disponibilização de dados sobre o oceano, sublinhando que hoje já é possível "observar o mar quase em tempo real".

O responsável lembrou, contudo, que a presença constante no mar exige financiamento estável, equipas qualificadas e equipamentos de elevado custo. "Se queremos realmente alcançar o oceano profundo, precisamos de financiamento estável e previsível, que permita planear a longo prazo", afirmou.

O representante da ARDITI recordou ainda que o Observatório Oceânico da Madeira representa um investimento anual na ordem de um milhão de euros, valor que considera reduzido face aos serviços prestados e à quantidade de dados disponibilizados. "Ainda existe, por vezes, a ideia de que investir no conhecimento do mar é um luxo ou algo secundário", referiu.

"O mar é imenso. E se não partilharmos recursos, conhecimento e infra-estruturas, dificilmente conseguiremos atingir um nível de conhecimento do oceano compatível com os desafios que enfrentamos", finalizou.

Foto Hélder Santos/ASPRESS
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A conferência, que decorre durante entre hoje e amanhã no Hotel Pestana Casino Park, assinala a primeira realização na Madeira da Grande Conferência do Mar do Jornal Economia do Mar. Sob o tema ‘Portugal, o Mar, as Ilhas e os Desafios de uma Renascença Atlântica’, o evento reúne especialistas, decisores políticos, académicos e empresários para discutir os grandes temas deste sector, como a Economia Azul e Inovação; Ciência e Investigação, Transportes Marítimos e a Geopolítica Atlântica.