A aposta de Portugal na capacitação
nas diferentes valências do mar passa, também, pela inovação tecnologia. Disso
não tem dúvidas João Borges de Sousa. Antes da sua intervenção num dos painéis
desta tarde da XI Grande Conferência Economia do Mar, que decorre hoje e amanhã
no Funchal, o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
(FEUP) e responsável pelo Laboratório de Sistemas e Tecnologias Subaquáticas
defendeu que Portugal tem de definir uma estratégia mais clara e ambiciosa
para afirmar a sua presença no Atlântico, apontando objetivos concretos e um
plano de longo prazo para o desenvolvimento tecnológico ligado ao mar.
O investigador destacou os avanços registados nos últimos anos na utilização de
veículos submarinos não tripulados, capazes de recolher informação sobre a
coluna de água e realizar o mapeamento dos fundos marinhos. “Temos vários
veículos no Oceano Atlântico, neste caso nos Açores, e aquilo que andamos a
desenvolver é uma presença sustentada no Atlântico”, afirmou.
Segundo João Borges Sousa, estas
tecnologias permitem complementar o trabalho tradicional realizado por navios
oceanográficos, reduzindo custos e aumentando significativamente a área de
monitorização. Como exemplo, recordou operações realizadas no Pacífico, onde
uma rede de veículos autónomos permitiu acompanhar uma área de cerca de 100
quilómetros quadrados em simultâneo.
Aos jornalistas, sublinhou que os sistemas autónomos têm
aplicações científicas, nomeadamente no estudo de ecossistemas marinhos, mas
também em áreas de segurança e defesa, incluindo operações de detecção e
neutralização de minas. E apesar dos custos associados a estas tecnologias, João
Borges Sousa considera essencial torná-las mais acessíveis.
Entre os projectos desenvolvidos pela equipa da FEUP,
destacou a organização do exercício internacional REPMUS, promovido em parceria
com a Marinha Portuguesa, a NATO e a Agência Europeia de Defesa. O exercício é
actualmente considerado o maior do Mundo na área dos sistemas marítimos não
tripulados.
Para o académico, o desenvolvimento de capacidades
tecnológicas próprias é fundamental para garantir a soberania nacional e o
posicionamento de Portugal no contexto internacional. "Torna-se realmente
importante termos tecnologia própria que nos permita fazer aquilo que neste
momento poucas nações fazem", defendeu.
Questionado sobre o papel da Madeira e dos Açores nesta
estratégia, João Borges Sousa considerou que ambas as regiões devem assumir uma
posição central. Destacou ainda o trabalho desenvolvido pela Agência Regional
para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação (ARDITI), com
quem a FEUP mantém colaboração há vários anos.
"Olho para os Açores, para a Madeira e para o
continente de forma integrada. Basta olhar para a geografia para perceber
porque é que Portugal precisa de ter uma presença sustentada nos oceanos",
afirmou.
Embora considere que o País está "no bom
caminho", o investigador entende que continua a faltar uma visão
estratégica mais definida. "Era bom ver ideias mais concretas
relativamente ao desenvolvimento nesta área. Precisamos de um 'roadmap' com
objectivos claros para os próximos dois, três ou cinco anos", defendeu.
Sem considerar que Portugal esteja actualmente em risco do
ponto de vista geoestratégico, João Borges Sousa alertou para a crescente
competição internacional no Atlântico. "Quer gostemos, quer não, estamos
em competição. E se estamos em competição, é importante assegurar boas
posições", concluiu.

